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Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo |
Todos os anos, ele pode ser visto a vagar pelas ruas cheias e conversas vazias. Ele aparece tal qual um obeso Papai Noel sem fôlego para carregar o próprio saco – cada um deveria ser capaz de carregar o próprio fardo, e sem o auxílio de animais escravizados em trenós voadores! O espírito natalino é muito alimentado, porém, mal-nutrido.
E se pudéssemos dar e pedir coisas que não se pode vender ou comprar? Tudo seria diferente – não mais fácil ou barato, mas mais saudável. Se os pedidos fossem feitos de sonhos, de sentimentos, de crenças, o velho que representa esta época do ano teria outra aparência – talvez sem o famoso saco ou a barba branca... Talvez nem fosse velho ou nem mais existisse.
As lojas estariam vazias e as pessoas, cheias, no bom sentido,
e não o contrário.
Quando fazemos listas, corremos às lojas, esvaziamos os bolsos e lotamos nossa árvore falsa com enfeites e embrulhos toscos, muitas vezes esquecemos que tão valoroso quanto o conteúdo é o pacote que o guarda. É ele quem o apresenta, quem o introduz e causa a tão importante primeira impressão – um pacote que guarda um presente é, na verdade, uma promessa, um sonho, uma esperança, um futuro: o tempo que ainda não veio, que está eternamente prestes a ser, mas que nunca de fato acontece, pois aquilo que acontece chamamos de "presente".
Dessa forma, o futuro é o embrulho de um presente, e o presente, por sua vez, um embrulho rompido, um futuro irrompido! Pouco antes de nascer, somos um futuro guardado no ventre de outra vida.
– e poderia estar aí uma bela explicação para todo o simbolismo natalino, mas, infelizmente, não está.
E na barriga de cada mulher que espera está o embrulho de um novo presente que, antes, precisa romper a barreira que o separa de seu futuro, para, enfim, ser
Bom seria se pudéssemos cobrir os pés da árvore sem raízes que nos planta o Natal em casa com pequenas caixas de futuros: aqueles que sonhamos àqueles que amamos. E que eles, ao abrir os seus, assim como nós, ao abrirmos os nossos, recebessem o melhor e mais real de todos os presentes - o de ser feliz hoje e em tantos novos “hojes” o quanto permitissem os pacotes recebidos – e merecidos!
"Que cada dia seja uma riqueza vinda num belo embrulho a se romper"
- eis o que diria sobre os meus pacotes - sob um largo e vermelho laço de fita.
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