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Crônicas - publicadas no caderno Mulher Interativa do Jornal Agora (RS) - Contos e Poesia, dos mais variados tipos, incluindo Videopoemas, Poemas Blavinos e o que mais surgir nas madrugadas da vida. Na barra lateral, boas dicas de literatura em Vitrine Literária & Escrevo ou Espio. Agora que já sabes o que esperar do P+2T, Boa lida!
O exercício mental é válido, mas no fim de tudo o que fica é o sentimento.
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Atenção: Todos os textos aqui publicados são de autoria de Ju Blasina.
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Onde quer que seja
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| Art by Sabine Pieper |
O tempo me chega
pelos
ouvidos
e me pega
pela mão
como se eu fosse
uma criança
perdida
numa casa vazia
não fossem os móveis
pouco a pouco
descobertos
de seus panos
quentes
brancos
para que (?)
novamente possam ser
(re) cobertos
daquilo que o vento traz
daquilo que a gente faz
e que o tempo permite
que se acumule
estaticamente
esteticamente
sobre os eles, sobre nós
há histórias
a se contar
e hoje o tempo me chega
pelos
ouvidos
e corre por mim
das pontas dos cabelos
a dos dedos dos pés
...
ela diz [a voz
do tempo me soa
feminina]
ela diz ter
sempre olhado
por mim
mas desconfio
que a verdade seja
"para mim"
e ela me viu
ser e mudar tantas
e tantas vezes
de móveis, de gosto
de rostos em espelhos
e porta-retratos
ela mantém a conta
ainda que não se queira
pagar para ver
ela me faz lembrar
de um tempo
que já se foi
e não sei
se sinto por ele
algo
além da dor
do lembrar
e não saber
...
enquanto ela canta
eu vago pelos cantos
como os fantasmas
de um passado
que agora se faz
presente
a casa era a mesma
mas eu
era outra
e dançava sozinha
sem medo de conter
lágrimas ou passos
de ida
de vinda
de dança
...e ela cantava
e canta
enquanto eu sigo...
a casa era outra
mas eu
era a mesma
e dançava com ele
qualquer que fosse
a música
sem me preocupar
se estavam certos
os passos
rodopiando seguimos
a eterna dança, enquanto
ela canta e sempre cantará
quando quer
que seja, onde quer
que se esteja.
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Rezas e confissões de uma cética
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| 'Bonecrinhas do vitrô' - foto by Ju B. |
Confesso: é estranho para alguém que se diz cética, mas, de vez em quando, eu rezo. Nada demais. Nem chega a ser uma reza de fato [não creio saber alguma em sua letra original, apesar de vir de uma família de rezadeiras]. Apenas uma espécie de desabafo mental, quando já deitada, semi-consciente, pouco antes de dormir. Alguns pedidos por clareza, por leveza, por terceiros que são primeiros em minha vida - desconfio que a maioria deles não esteja "nem aí". Uma conversa travada não sei bem com quem. Talvez com o silêncio, com o escuro, com meu subconsciente semi-consciente, tanto faz. O importante é que, de vez em quando, tenho essa vontade súbita e não me envergonho em atendê-la. É algo que me faz bem. Admiti-la agora, porém... está sendo bastante constrangedor. Não sei se faz alguma diferença aos terceiros cujos nomes envolvo em meus devaneios pseudo-religiosos - continuo desconfiando que a maioria deles não esteja nem aí. Até onde me consta, até hoje, nenhum pedido direto me foi atendido, então, creio que não faça qualquer diferença. Até desejava que sim. mas... Tudo bem. Mantenho-me cética. O objetivo nunca é ter, de fato, alguma resposta. Apenas ser capaz de verbalizar, ainda que em silêncio, aquilo que me aflige em sentimento. Pensando bem, é de um egoísmo sem tamanho essa minha tal oração. Não sei se tem algo de religioso nela, mas, de vez em quando a repito, ainda que nunca seja a mesma. E sempre a precedo e encerro com um rápido sinal da cruz. E um beijinho, demorado, na unha do polegar direito. Amém.
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Ju Blasina
In:
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Mas será o fim do mundo?
E, mais uma vez, o fim do mundo se aproxima.
Ao menos segundo o calendário Maia. A previsão pode ser antiga, mas os indícios, visíveis e inconfundíveis, são adequados aos tempos modernos. Os sinais do fim dos tempos nos chegam por todos os locais onde se possa conectar, através de casos que todo mundo conhece – até mesmo a Luíza, que já não está no Canadá!
Comecemos pelo caso das quadrigêmeas de Taubaté, onde uma mulher, ostentando um bizarro volume abdominal que mais parecia uma bola gigante que uma barriga humana, ganhou a atenção da mídia, mobilizando auxílios de todo o tipo para seus supostos bebês. Questionada quanto à veracidade da gestação, a pedagoga barriguda subiu nas tamancas e correu para bem longe da mídia. Ela e o marido poderão agora embalar, não quatro bebês, mas pelo menos uns dois processos: estelionato e falsidade ideológica.
Lamentável que a televisão apresente um circo onde os palhaços estejam do lado de fora da tela.
E da TV para a internet a notícia se agiganta! Não demoram a pipocar manifestações pelas redes sociais – afinal, nos dias de hoje, opiniões existem para serem postadas, curtidas e compartilhadas, mesmo as mais preconceituosas e equivocadas. Mais lamentável ainda é que os casos mais graves não ganhem a mesma atenção, nem causem a mesma comoção. Ter um fundo de absurdo parece o mínimo necessário para se despertar o potencial viral.
Absurdo como o caso do Yorkshire assassinado pela dona. Enquanto a revolta de uns fez disso o crime do ano, a de outros insistia que foi “só” um cachorro, enquanto há tantas crianças vítimas de maus-tratos pelas quais não se protesta com o mesmo afinco – o que não deixa de ser verdade, embora isso não devesse se tornar uma competição − o foco está na violência e não no alvo dela, no perigo que representa para a sociedade alguém capaz de matar um ser indefeso – o cão – e em frente a outro – uma criança, fato este que poderá trazer implicações legais, uma vez que matar animais não seria o suficiente.
Pode faltar foco, faltar assunto, mas nunca, jamais, faltará espaço para piadas de todo o tipo.
Isso porque o limite entre o drama e a comédia é uma espécie de incógnita e rir da desgraça alheia parece desopilar a alma. Para os piadistas compulsivos, vale lembrar o caso do comediante Rafinha Bastos, recentemente sentenciado a pagar uma gorda indenização por danos morais a uma certa cantora, graças a uma 'piadinha' de gosto duvidoso. Portanto, por mais convidativo que lhe possa parecer engrossar o coro dos debochados, é sábio manter um mínimo de bom senso − se a internet é terra de ninguém, num mundo sem lei, cada cabeça é seu próprio guia. A menos que você esteja disposto a retuitar também o status do comediante em que esse se dizia "ocupado: catando moedas".
E sempre há um reality show para alimentar a bizarrice televisiva. No caso da bebedeira seguida de intimidades sob um edredom onde não se sabe se havia alguma consciência, chocante é também todo o preconceito manifestado – e pelas mulheres! Mais uma vez, problema de foco, dentro e fora da tela − e de falta de informação: havendo suspeitas de um estupro de vulnerável, o Ministério Público é obrigado a investigar o caso, sem a necessidade de denúncia. Incrível que os milhares de telespectadores que testemunharam o evento mais prejudiquem que ajudem a solucionar o mistério, jogando pedras para todos os lados, sobretudo no que diz respeito às regras do jogo, quando deveriam questionar as bebedeiras e orgias, o abuso e a falta de noção em rede nacional – e, afinal, quem deveria ser eliminado? Boa pergunta.
Tem muito sapato apertando no lugar errado, incrível que se consiga caminhar desse jeito!
Já cantava Lulu Santos: "Assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade". A irresponsabilidade da mídia faz lembrar outra música (Televisão, Titãs): "É que a televisão me deixou burra, muito burra demais. E agora eu vivo, dentro dessa jaula junto dos animais...". Trocar as tela pelo aparelho de som poderia ser uma boa sugestão para nos livrar do fim do mundo que se apresenta – não fosse Michel Teló e seu sucesso internacional de frases sem nexo repetitivas...
É, pelo visto, o fim dos tempos em 2012 é mais que um mero meme* que todo mundo no mundo todo compartilha.
*Meme: unidade de evolução cultural que pode de alguma forma autopropagar-se. Definido por Richard Dawkins em O Gene Egoísta, 1976.
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Do bom e do melhor
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| Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo |
"Stay true, stay you"
"Seja verdadeiro, seja você mesmo", dizia o cartaz de certa campanha lançada numa popular rede social. O mesmo dizia ainda "Nunca traia seus valores!" – ainda que para isso tenha que trair um amigo, decepcionar um amor ou magoar um inocente? Eis um grande dilema entre os dramas e tragédias de uma vida real. Dilema este que não cabe em qualquer imagem virtual – não se ela quiser se manter por tantos curtida:
Até que ponto a verdade é suportável?
Até que ponto vale a pena manter-se fiel a ela, quando ninguém mais, além de sua própria consciência, apreciará isso?
A autenticidade é uma espécie de teimosia. E para suportar, tanto ela quanto os pormenores por ela gerados, é preciso ser firme, mesmo tendo em si a certeza de que tal firmeza acabará, muitas vezes, confundida com frieza. Ser autêntico requer ser também autossuficiente – o que ninguém de fato é, não importa o quanto assim se almeje ser: "ninguém é tão alguém que nunca precise de ninguém". E assim, o velho jogo segue...
As relações humanas se baseiam em muitas coisas, tantas que já não creio haver espaço para a verdade entre elas. Claro que há casos e casos e exceções em todos eles e que o bom-senso deve imperar “agora e sempre amém”, mas quem nunca se viu numa encruzilhada onde sabia qual era o caminho certo – aquele que, uma vez trilhado, nos garante um sono tranquilo, ainda que seja o mais obscuro deles – e sabia também qual o que todos esperavam que seguisse?
Melhor seria satisfazer as ânsias alheias e pôr a consciência num saco pardo, como um gato enfurecido com o qual se precisará lidar - sozinho - mais tarde? Ou manter o passo firme no caminho reto e enrijecer a carapaça para receber as pedradas dos insatisfeitos – que surgirão mesmo dos flancos que se acreditava estarem mais protegidos?
Talvez fosse melhor parar, abandonar qualquer caminho, cavar no chão um buraco e nele viver feito um ermitão? Atirar-se de vez à misantropia e desistir de entender as regras desse tão complicado jogo ao qual chamamos de sociedade: o jogo do enganar voluntário que evita o sofrimento que muita verdade acarreta.
Evita?Mascara!
E lá estamos nós, de expressões devidamente encobertas, alegremente inseridos entre cordas e amigos de pano no teatro de marionetes em que interpretamos viver. Bom que a máscara traga ao rosto um sorriso congelado, pois se guardar uma lágrima, essa jamais encontrará o chão – uma vez que está pintada [e nem toda a tinta permite deslizes] e outra que, nesse cenário, não há e nunca haverá um chão.
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da dureza do ser
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| Deeper by Martine Johanna |
Se de aço fosse
feito o corpo, a carne
e o que mais neles jaz
escondido
teriam eles sido
há tempos
deformados
ou por ferrugem
devorados ou pior
estariam bem
guardados
intactos e opalescidos
de qualquer luz
escondidos
e obscuramente esquecidos
seus reflexos
distorcidos
por quaisquer olhos
ignorados aguardariam
eternamente minimizados
sobre a frieza imutável
da superfície envelhecida
sob a poeira impenetrável
a encobrir-lhes
até a essência enrijecida.
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Ser parido
| Autorretrato by JuB |
Quero viver naquele mundo
novo guardado no ventremesmo que sobre ele
que sobre tudo se saiba
pouco e sobre o nada
que dura para sempre [?]
tudo. e lá, onde os sonhos
são melhores, mesmo
antes de se acordar
quero viver
no mundo que dorme agora
contigo
tão inofensivo e pequeno
tão frágil, mas protegido
por nós, tão pouco sabido
menos ainda por eles
que por mim
onde a verdade cresce [?]
num mundo que se alimenta
atrás do umbigo e pouco a
pouco nos come por dentro
com sua fome de não nascido
que aumenta até o momento
que precisa, cedo ou tarde
ser parido.
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