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sábado, dezembro 17, 2011

À mulher do banheiro da rodoviária

sábado, dezembro 17, 2011
Minutinho de atenção, por favor: A crônica "Conversas Transversais", publicada no caderno Mulher Interativa [Jornal Agora] da semana passada, foi erroneamente atribuída a mim, quando na verdade a autoria é de Silvia Oliveira. Estive fora na ocasião e não a li. Só fiquei sabendo disso ontem, ao ouvir meu médico comentar sobre algo que eu supostamente teria escrito. // Lembrando que colaboro com o caderno quinzenalmente, logo, neste sábado/domingo, sim, o espaço é meu. Grata!

Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo


Quinze minutos - esse era o tempo de que dispunha para sair de um ônibus, comprar as passagens e seguir, em outro, o caminho de volta para casa. Seria um tempo razoável, não estivesse eu grávida, isto é, cheia de urgências: de um banheiro, antes de tudo!

A necessidade de ir ao banheiro em todo e qualquer lugar é um tremendo desafio a alguém que nunca antes usaria outro, senão o seu [e por conta disso colecionou diversos problemas de saúde ao longo dos anos]. E lá fui eu, viver perigosamente, em busca do banheiro da rodoviária. Argh!


Tudo é suspeito em banheiros públicos. Nem mesmo as mulheres se parecem com as das ruas.

Ou por serem muitas as que evitam este tipo de lugar, exceto quando a necessidade é extrema (eis o meu caso) ou por se mostrarem diferentes quando flagradas em tal lugar - constrangidas, disfarçadas, apressadas, brigando por um pedaço quer seja de espelho quer seja de papel, na ânsia por um assento livre - a irônica privacidade da privada pública.

Mal abri a porta do feminino – com o cotovelo, minimizando a contaminação por contato – e me deparei com ela: a mulher que pede dinheiro no banheiro, figura clássica! Confesso que geralmente a ignoro – mexer em bolsa num lugar desses não é uma atitude muito esperta; confiar em mulheres de banheiro, menos ainda, afinal, são elas que escrevem as barbaridades ortográficas e pornográficas nas portas dos sanitários (numa assustadora coincidência, dias antes, naquele mesmo local, me deparei com uma em que dizia “te amo, Juliana”, mensagem acompanhada por um desenho nada romântico, embora parte dele até lembrasse um coração, se visto ao contrário).

Pois bem, lá estava a mulher do banheiro, repetindo incessantemente a mesma frase em que pedia um real para cada uma que parava em frente ao espelho (ou seja, a todas). Mas quando me viu, lutando pelo meu pedaço de papel-lixa, a frase foi outra: "moça, a senhora tá grávida [sic]?", respondi que sim, com a cabeça, "ah, eu tive um menino, faz seis dia [sic]". Eu, que detesto conversar com estranhos, ainda mais em banheiros, ensaiava dizer algo genérico, do tipo "que bom!", quando fui interrompida por ela, "oh, a minha cesárea" – dizia, enquanto baixava o cós da calça o suficiente para que eu visse a prova de sua verdade sob a forma de um corte ainda vermelho e mal-coberto por pontos que me causaram um arrepio indisfarçável. 

Estranhei por ela ter seguido com seu apelo às outras mulheres, que a ignoravam, e não a mim. Também, já não era preciso. Enquanto eu mexia na bolsa em busca de uns trocados no pouco que havia restado do que levara à viagem de compras para o meu bebê – as notas davam lugar agora a notas fiscais de um carrinho importado e vários produtos de nomes famosos – ouvi a mulher dizendo que precisava juntar seis reais, para comer, viajar ou talvez ambos, não entendi ao certo, estava atônita pela visão daquela cesárea ainda fresca. Em nenhum momento a ouvi falar o nome do seu bebê recém-nascido. Juntei algumas notas e entreguei a ela. "Ah, moça, muito obrigada, dá e sobra!"

Enquanto eu ia, finalmente, fazer aquilo que me levara até ali, ela seguia falando "já sabe o que é?" – “ainda preciso confirmar, mas acredito que seja menino”, respondi eu, sorrindo meio forçadamente e entrando muito apressadamente no cubículo da privada, sem tocar em nada. Ela seguia falando do lado de fora. Sua voz era suave e falava muito pausadamente, quase num sussurro, como quem se não quer atrapalhar. "Tudo de bom pra senhora. Viu, moça? que tenha uma boa hora. Saúde pro seu bebê [sic]" - ela dizia enquanto sua voz ia ficando distante, até que já não mais pudesse ouvi-la.

Segui apressadamente as minhas funções, para cá e para lá, naquela rodoviária tão podre quanto todo o resto, e não mais vi nem ouvi a tal mulher do banheiro – devia a ter deixado para trás, junto a ele, mas algo meu ficou perdido naquele encontro. E não me refiro à meia dúzia de trocados que para ambas tanto significaram, falo de algo que não foi dado, nem pedido, da eterna dúvida do não dito.

Ainda penso nela, em seu bebê sem nome nascido perto do Natal, em seu destino ou tragédia – sem um rei sequer que lhe presenteasse com qualquer bobagem. 


Será que lhe aguardavam numa manjedoura, numa incubadora ou em outra caixa qualquer? Talvez devesse eu ter perguntado mais que respondido, talvez não: perguntas só enriqueceriam o meu saber e nada além. E vai que dele ela só guardasse consigo a cesárea, a dor e a necessidade daqueles seis reais, sabe-se lá para quê. Quando nada se pode fazer, de que vale mais se dizer? De que vale? 

"De nada, mulher do banheiro da rodoviária", de nada.

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