Crônica publicada no caderno Mulher Interativa - Jornal Agora - outubro de 2012.
Molho a pena imaginária no pote do saudosismo – culpa dele o gotejar de reticências – e me permito essa carta pública a um remetente que a dispensa, uma vez que me lê do avesso, mas... a outros tantos, tem valia – e eu inclusa neles:
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Foto datada de março de 2011 - 1 ano antes do tal 'grande dia' citado neste texto. |
Antes de qualquer coisa: quem é
você e o que você fez com aquela que costumava ser eu? Não leve para o lado
pessoal, sim? Sei que nenhum de nós tem culpa, mas a atual situação está
insustentável - convenhamos! As mudanças são tantas e tão drásticas que, num
dado momento, você se tornou um completo estranho para mim - e isso foi muito
difícil, uma barra, especialmente nos primeiros dias - eu mal conseguia te
olhar nos olhos. Creio que te deva desculpas por conta disso.
Com o passar do tempo e a
considerável diminuição da sua -nossa- silhueta, acredito que tenhamos assinado
uma espécie de tratado de paz - não que antes estivéssemos em guerra, afinal,
sempre fomos aliados e fizemos juntos o que de mais grandioso se pode fazer na
vida: geramos uma nova vida! Pusemos no mundo uma linda e encantadora
criaturinha e isso, obviamente, teve um alto custo - tem mesmo que ter, é
justo. Custo esse que ainda estamos pagando, das mais variadas formas, embora a
mais cara delas não caiba em números.
Digo que fizemos juntos porque ter
um filho é uma tarefa exclusivamente da mãe - fazer, sim, outra participação
pode reivindicar o mérito, criar, também, mas ter, no sentido 'parido' da
palavra, não.
Só nós dois sabemos o quão
pesados eram aqueles 20 quilos extras, o quão doídos eram os movimentos mais
simples e o quão doido o mundo se tornou durante aquele verão, aquele maldito
verão em que os sapatos não cabiam, em que os botões não fechavam... e todo
aquele cós de elástico e os tops no lugar dos sutiãs e a saudade de enxergar as próprias partes
íntimas... Incontáveis litros de cremes
e óleos a nos besuntar dia após dia... E das noites, então, melhor nem lembrar!
Tempos difíceis foram aqueles... Tempos maravilhosos!
Apesar de todos os pesares, nos
sentíamos tão lindos: você e eu com ele dentro. E desconfio que estivéssemos
mesmo, a julgar pelo olhar de encantamento com o qual todo o resto do mundo nos
assistia passar - encantamento com uma pitada de pavor, algo do tipo
"tomara que essa mulher não tropece agora ou vai cuspir o bebê aqui"-
e não tropeçamos, seguimos juntos, firmes e fortes [bem mais fortes do que
firmes] e trabalhamos até o grande dia... em que o tão esperado trabalho não
aconteceu nem como nem quando esperávamos, mas nem por isso foi menos grandioso
o dia em que ele veio - e veio bem, muito bem,
a nos olhar pela primeira vez... E fez de tudo tão menor... E fez de nós
tão melhores, apesar da aparência!
E se por conta disso ganhamos
estrias que nos farão aumentar a barra dos shorts e a necessidade de sutiãs
três vezes maiores e mais reforçados... E se o nosso cabelo já não é o mesmo, e
se ganhamos uma profunda cicatriz no abdome que um dia foi nosso maior orgulho
- e que, provavelmente, nunca mais será o mesmo - e se nem nossa bunda parece a
mesma, fazer o quê?
Como se pode tanto lamentar,
quando se tem uma fonte inesgotável de orgulho a carregar agora fora do corpo? Simples: lamentando – é a parte mulher que se
sente diminuída pelo espaço que ocupa a parte mãe. E não dá para ser mãe E mulher
E linda como ambas? Dá... Mas requer dedicação, um punhado de paciência e outro
de realismo: difícil algo se manter o mesmo depois de tudo que vivemos...
E que graça tem em ser o mesmo?
Bom mesmo é ser novo a cada dia e ter histórias a se contar sobre as velhas coisas.
Desculpe pelo longo texto, Seu Corpo,
meu corpo, corpinho, já que somos íntimos, mas era preciso dizer tudo isso
antes de te agradecer: obrigada por me levar por aí mesmo quando não quero
muito fazê-lo e por se mostrar mais forte e resistente que eu poderia supor.
Obrigada por fazer aquela magia -não encontro outra explicação- de encantamento
que mantém um homem morrendo de amor por nós, mesmo tendo ele nos visto de
perto no pós-parto - e melhor ainda: obrigada, mas muito obrigada por fazer tudo
isso e, finalmente, voltar a caber naquele jeans 38! Você é mesmo demais, meu
caro – jamais me deixe dizer o contrário!
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