[P+2T] Ebook Erótico #2: Download gratuito!

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Poesia: A minha boca...

quarta-feira, fevereiro 25, 2009 2

A minha boca

Já chamou tantos nomes
Já gritou muitas vezes
Já gritou tantos nomes
Já chamou muitas vezes
Em vão, ao léu

A minha boca

Já provou tantas coisas
Do doce ao azedo
Da alegria ao medo
Do mel ao féu
Do inferno ao céu

A minha boca

Já provou tantas vezes
Muita verdade,
Alguma mentira
Muitos amores,
Um tanto de ira
Muito alvo pra pouca mira

A minha boca

Já fez de mim bruta,
já fez de mim rouca
Já me fez puta, devassa, nefasta, louca,
Já fez de mim menina, homem, mulher
Já fez de ti tão raro
Já fez de ti qualquer

A minha boca

O beijo, o provar
O gozo, o arfar
O riso, o calar

A minha boca

sábado, fevereiro 21, 2009

CRÔNICA - Desconvencendo

sábado, fevereiro 21, 2009 0
Crônica publicada jornal AGORA fev/2009





















Ilustração Jairo Teixeira


E mais uma vez chegou o carnaval!

Embora o carnaval possa ser bem definido como ‘o estado de espírito brasileiro’, nesta época do ano ele se materializa em tambor e fantasias, ou a completa ausência delas, para felicidade dos mais assanhadinhos!
Quantos turistas chegam para o carnaval, arrastados por sua imensa curiosidade – muito mais sexual do que folclórica – pelas belas mulatas semi-nuas requebrando ao som do tamborim... E quem vai criticá-los? Suas mulheres? Ah, desculpe, mas neste momento elas estão ‘fora da área de cobertura ou ocupadas’ tentando descobrir se ‘aquilo tudo’ é enchimento! Lê-se por ‘aquilo tudo’ qualquer coisa que a sua mente fértil seja capaz de imaginar – afinal, estamos no carnaval!
E se você ainda não sabe, existe uma lei que obriga todo e qualquer brasileiro a ser um bom carnavalesco - não uma lei escrita de fato, mas uma convenção – Gostar de carnaval é praticamente um pré-requisito para ser considerado um ‘brasileiro que se preze’.
Assim como a convenção de que ‘gaúcho que é gaúcho’ toma chimarrão e assa (não basta comer) o ‘sagrado’ churrasquinho de domingo! Ah, e ao menos uma vez na vida é preciso ter montado em um cavalo!
Se você é vegetariano, tem nojo daquela ‘bomba de boca em boca’ e morre de medo de cavalo, ‘Bah, teu lugar não é aqui vivente! Por favor, te muda pra um outro estado - assinado tchê bagual’.
Assim como é de conhecimento geral que ‘homem de verdade’ bebe sua cervejinha assistindo ao futebol com os amigos e comentando a capa da última ‘playboy’, enquanto as mulheres (porque, afinal, mulher ‘sempre’ anda em comboio) lavam a louça do almoço, de olho nas crianças, falando mal de alguma coisa (serve o marido, a vizinha, ou a capa da playboy) enquanto assistem a novela, suspirando pelo protagonista bonitão!
Ah, as convenções – o preconceito enraizado, disfarçado de cultura popular! Deixemos a hipocrisia de lado - quem de nós não tem o seu preconceito? Seja com cor, peso, altura, música, sexualidade, naturalidade ou nacionalidade - ‘Argentino é isso ou aquilo’ – argentino é argentino e pronto!
Assim como o carnavalesco, o gaúcho, o homem ou a mulher – fora o rótulo, são pessoas, e para afirmar qualquer coisa além, é preciso conhecê-las, afinal, ‘de perto ninguém é igual’ – cada um de nós é uma ‘caixinha de surpresas’ - nem sempre o conteúdo agradará a todos, isso é fato! Fazer o quê? É o que somos e isso é valioso!
Deixemos o gaúcho ser vegetariano, deixemos o homem lavar a louça, deixemos a menina gostar de ‘playboy’, deixemos as pessoas serem felizes, cada um ao seu modo. A felicidade dos outros não incomoda ninguém! Ao menos não deveria incomoda - Diga isso ao seu vizinho, aquele do ‘desgosto musical’ com ‘problemas auditivos’ que todo domingo demonstra sua felicidade em decibéis...
Ao menos esta convenção deveria ser unânime: ‘sua liberdade termina onde começa a do próximo’... Alguém devia avisar ao seu vizinho!
Agora, se você é brasileiro e não gosta de carnaval, se irrita com batucada e tem alergia a plumas e paetês – paciência... Muitos esperam o ano todo por este momento, muitos vivem e trabalham por esta festa! Lembre-se: tudo que vem, vai – embora não ‘vai’ mais rápido só porque você quer! Aceite isso! E ao menos aproveite o feriado para fazer algo que não seja reclamar. Divirta-se! Mesmo que para isso seja necessário correr para bem longe, usando grandes tampões de ouvido! Boa sorte com o transito, pois parece que o mundo está vindo pra cá!
Aos demais, ‘brasileiros que se prezem’: Aproveite, afinal, tudo é festa! Já dizia o carnavalesco bêbado: ‘Tá chegando a hora... a hora é essa... que horas são?’
Vista a fantasia, só não vista as convenções!
E viva o Carnaval!

Poesia - Navalha

Vou te cortar lentamente
Com a lâmina das minhas angustias
Pouco afiada – mal mirada – dor alargada
Vou te cortar diariamente
Lenta e eternamente
Deixo a ti, a porta aberta
Deixo a ti, a chave incerta
Fecho os olhos, pouco alerta
Prendo a inspiração e a respiração
Ainda sinto o cheiro da tua transpiração
Tu não partes
Junta as partes e permanece ali
Preso a mim, presa a ti
Cordeiro do sacrifício
E novamente te toco
Como ferro em brasa
Penetro – faço de ti minha casa
Te mordo, te marco, te sofro, te rasgo
Pouco a pouco apago a vida em ti
O brilho dos teus olhos – opaco
O grito dos teus lábios – já fraco
E tudo o que resta – um naco
Daquilo que um dia sorriu em ti
Vou de cortar lentamente
Em muitas partes, em muitos ramos
E se te corto é porque te amo
E só me alimento de ti
Vou de cortar lentamente...

Imagem: Brom

terça-feira, fevereiro 17, 2009

CONTO: O Casamento

terça-feira, fevereiro 17, 2009 0








Ilustração: Jairo Tx











Ela está sentada - pernas entreabertas, vestido estrategicamente bagunçado deixando as coxas à mostra e “acidentalmente” um pouco da calcinha (vermelha). Decote descaradamente aberto expondo os seios - bagunça o cabelo, tira os óculos, pega a colher que ficou esquecida sobre o que restou do pote de sorvete e dá uma risadinha olhando para a tela da TV, apesar de não fazer a menor idéia de que programa está passando, não importa, desde que o “alarme improvisado” funcione – é preciso outra risadinha, desta vez um pouco mais alta - funcionou:

O marido, de costas para o sofá em que ela se encontra, trabalha em algo inútil no “maldito computador”. Ouve a risadinha e se vira – para a TV, não para ela, que acabara de entrar num estado de desespero silencioso. Sem entender o motivo de tanta risada, ele a olha de relance, sem prestar muita atenção.

“É a minha deixa”, pensa ela e então, lambe a colher de sorvete, lentamente, fingindo-se distraída com a TV. Joga uma das pernas sobre o braço do sofá (como fazem as atrizes pornôs, praticamente um exame ginecológico) e ele...

Bom, ele não volta para a “porcaria importantíssima” em que estava trabalhando. Ele para - olha fixamente para ela, para aquele “quadro recém pintado” como quem acaba de chegar em meio a um espetáculo, tentando entender “o que diabos eles querem dizem com isso?”

Acontece que ela é tão convincente em seu papel – de distraída - que ele acredita e volta ao trabalho. E ela ri, agora não mais um riso forçado - ela gargalha - sentindo-se a mais patética das criaturas. Ri de si mesma e daquela situação ridícula. Ri dele e da porcaria da colher que nem gosto de sorvete tinha mais!

Ah, o casamento... O deles sempre fora formidável! Casaram-se apaixonados, ambos realizados em suas carreiras, ainda jovens e bonitos. O convívio era excelente: dividiam tudo, riam de tudo, pareciam saídos de um comercial de margarina, e o sexo... “uau” a química era perfeita! Bastava um toque e a combustão era imediata - mal podiam se olhar!
Eram, sem dúvidas, um casal perfeito! Tinham um casamento invejável!

Tinham... e mal podiam se olhar...

Quando se pegou pela primeira vez perdida nestes pensamentos, culpou a sogra, o trabalho, a TPM – “precisamos de férias, é isso” – As férias vieram, e foram, e vieram de novo, repetidas vezes – as dúvidas e os culpados também: as crianças, os hormônios da menopausa, da andropausa. A casa: “precisamos redecorar” - o feng shui salvou o meu casamento – dizia a matéria da revista. E a casa teve um arco-íris de cores, um leque de estilos e uma dúzia de endereços. Fizeram terapia, aulas de dança, meditação, medicação!

“Mas tudo bem, isso é absolutamente normal...
Nosso casamento é perfeito!”
- Repetia isso como a um mantra, tentando convencer a si mesma.

Mais tarde, bem mais tarde, ele reclama que ela está com dor de cabeça, novamente – deve ser de tanto que rir - pensa ela, um tanto irritada e outro magoada. Mais cedo, bem mais cedo, ele não era assim...

Achava sexy até a cara que ela fazia escovando os dentes! Tinha que fugir dele pela casa, sempre que se arrumava para uma festa – ela lhe achava tão chato, ele lhe achava tão linda!
Ah, e como ela queria ser “chateada” esta noite!

Acontece que ele ainda a achava “tão linda”... só não entendia porque, sempre que tentava uma investida, ela “parecia” recuar – “Deve ser impreensão minha, só pode! Afinal, ela sempre gostou do meu jeito” - e lá ia ele novamente:

Na mesma hora de sempre, com a mesma mão no mesmo lugar de sempre (mão esquerda no seio direito). Nessa noite não seria diferente. E ele respondia com a mesma frase de sempre, a qula ele estranhamente não havia decorado: “vai devagar amor, preciso de mais clima...”

Clima? Antigamente podia ser inverno ou verão que ela tava sempre “no clima” - ele pensa, mas não fala, só faz uma careta e recolhe a mão – uma careta que, mesmo no escuro ela consegue perceber, sentindo-se “a última” do mundo – o que é traduzido por um longo e profundo suspiro.

Já é madrugada e ela mal dormiu - pensando coisas do tipo “como podemos estar tão perto e ao mesmo tempo tão distantes?” - até que subitamente o corpo dele, ainda dormindo, procura o seu - já é quase de manhã, faz quase uma semana que não transam - ela sorri e se contenta... Aceita o que vem e como vem. E lá vem ele com a boa e velha mão esquerda sobre o seio direito, como sempre foi...

Após o ato, ele adormece – na verdade nem acordou, veio e foi no “modo automático”, o que significa sem muitos beijos ou palavras – ela continua acordada, extasiada pensando “ele não mudou uma vírgula sequer, em todos estes anos e... Nossa! Como é gostoso... isso ainda me mata...”

Quando acorda, o marido já saiu – trabalham em turnos diferentes – ela cheira o travesseiro dele, sorri e se levanta. Vai até o banheiro, toma um longo banho, vistoriando o próprio corpo atrás de algo que mereça levar a culpa, algo que esteja “fora do lugar” e conclui: “eu é que estou fora do lugar”.

Ao sair, se olha no espelho por um longo tempo – olha-se nos olhos – um momento profundo em que vê muito mais do que gostaria.... e chora...

Chora por não ter mais 18 anos, chora porque ele é tudo o que ela mais ama no mundo, chora por ter um “casamento perfeito” e chora, simplesmente porque gosta de se ver chorando no espelho.

CONTO: Morte e Espelhos










Ilustração: Jairo TX











Mais um feliz dia de trabalho para o Dr. Shoji. Ele chega pontualmente às 07h04min – nem um minuto a mais nem um minuto a menos – ao seu distinto consultório, num dentre os tantos arranha-céus no centro de Tóquio; 49º andar.

— Ohayou Menial Sam!
— Ohayou Dr. Shoji, como vai a família?
— Bem, muito bem, eu diria, gentileza sua perguntar.

Seu inglês era absurdamente perfeito para um japonês! E ele se orgulhava disso - teve a melhor educação que o dinheiro e a disciplina podem fornecer, viajou o mundo e ao abrir seu consultório em Tóquio, fez questão de uma secretária americana - e poliglota! - para que assim atendesse melhor a todo e qualquer paciente, afinal ‘a insanidade não escolhe descendência’ já dizia um provérbio de sua própria autoria.

— A senhorita poderia, por obséquio, levar uma xícara de chá até a minha sala, dentro de 4 minutos?
— Pois não, doutor. Chá verde, sem açúcar e 4 biscoitos para acompanhar?
— Sim, minha jovem, seria de meu agrado.

Era assim, todo santo dia, nem mesmo uma vírgula mudara de lugar – muito menos o chá – ainda assim, conferir as preferências quanto ao chá e o número de biscoitos era algo imprescindível para o bom relacionamento profissional, que já durava 4 anos!

Não tão pontual foi a chegada do primeiro paciente – Hiroito Okashi – primeira consulta.
Aliás, como todo e qualquer paciente do Dr. Shoji: uma única consulta era suficiente para curar qualquer perturbação, conforme garante sua propaganda: rodapé de 4X4 cm, publicada a cada 4 dias, em quatro idiomas, logo abaixo do obituário:

– Para que o seu nome não esteja aqui amanhã, o meu está hoje: DR. KAGAMI SHOJI –

Sua secretária tomara boas lições de marketing, e segundo ela, o obituário é sem dúvida o melhor lugar para angariar os D’s (deprimidos e/ou desesperados).

Sr. Okashi procurava cupons de desconto para guloseimas quando, por acidente recortara o rodapé do Dr. Shoji e por pura gula ali estava – atrasado e esbaforido. O elevador teimava em parar sempre no andar inferior, e subir um lance de escada não foi nada agradável para o homem de 130 Kg.

Sr. Okashi não só estava atrasado e esbaforido, como também ensopado de suor! Ele se apóia na parede e entrega o cupom suado e amassado à secretária, que sorri gentilmente e pelo telefone anuncia ao doutor a chegada do ‘paciente’ – sem nome mesmo – seu serviço preza pelo absoluto sigilo!

O homem, sem entender ‘que raios de lugar é esse’ e torcendo para que ‘ao menos o brinde valesse o sacrifício da escadaria’, é então conduzido ao divã. Confuso e atônito, ele apenas senta naquele ‘banquinho confortável’, enquanto o doutor faz o seu trabalho.

Exatos 40 minutos depois o homem deixa o consultório - calmo e bem disposto. Na saída esvazia os bolsos na lixeira da secretária, que com o mesmo sorriso automático, olha e pensa ‘como pode caber praticamente uma confeitaria inteira no bolso de um homem?’ (...minutos de neurônios em sacrifício...) e a resposta: ‘é claro, é um bolso grande!’

Cerca de 90 minutos depois chega o próximo paciente – homem carrancudo, cara de poucos amigos, ombros tensos, olhar ameaçador – ‘um típico americano’ pensa a Srta. Menial e nem ousa dirigir-lhe a palavra, apenas sorri e mais do que rapidamente o conduz ao consultório principal, onde o doutor já o aguarda. Alguns berros, barulhos e minutos depois (40, lógico), o homem sai do consultório. Sorri e agradece, apresentando-se e beijando a mão da secretária que, perplexa, jura ter ouvido o, agora gentil cavalheiro, Sr. Hardman cantarolando alguma coisa enquanto seguia pelo corredor, escada abaixo.

Pontualmente às 13 horas chega ela – mulher bonita, cabelos e olhos negros. Apesar do ar suave e sorridente, há algo muito assustador naquela mulher e não é apenas a grande borboleta negra tatuada no rosto, ‘coisas assim são comuns por aqui, deve ser maquiagem, só pode!’, pensa a secretária, enquanto a paciente caminha serelepe e entra direto no consultório, sem bater à porta e nem mesmo ser anunciada!
Consulta muito breve, menos de 15 minutos e ela sai, com a mesma graça assustadora com a qual entrou.

Dr. Shoji dá por encerrado o expediente. Algumas pessoas orgulham-se de ter um relógio biológico apurado – ele poderia se gabar por sua agenda de consultas mental; apesar de não trabalhar com hora marcada, inexplicavelmente sempre sabe quantos, quando e quais pacientes atenderá por dia. O que torna a Srta. Menial tão obsoleta quanto um porta guarda-chuvas no verão, porém, além de imprescindíveis em um consultório respeitável, ambos são belos objetos decorativos – sobretudo a Srta. Menial!

— oh, como eu nunca havia reparado em tamanha formosura... a palavra gostosa lhe é bem apropriada! - São tantos os adjetivos que lhe vêm a mente, tantos atrativos que lhe pulam aos olhos, hormônios circulam em abundância e respostas fisiológicas previsíveis que o Doutor nem mesmo percebe a atitude gerada, se vê surpreendido... Ainda mais surpresa fica a Sra. Menial:

Ela se assusta com a brutalidade com a qual ele a toma, grita conforme seu cabelo é puxado e geme quando seu corpo é jogado violentamente sobre a mesa. Teme, reage brevemente, mas não desgosta... e como boa e servil secretária, logo reconhece o ato como algo ‘imprescindível para o bom relacionamento profissional, que já durara... quantos anos mesmo?’

Após esta pequena recreação, Dr. Shoji alinha o paletó, pega a valise, despede-se cordialmente da tão gentil secretária e segue, tranqüilo e sereno, até sua residência, onde é esperado para o almoço familiar. Entra na impecável casa, beija – na testa – a impecável esposa e passa a mão na cabeça de seus filhos, já sentados à mesa.

A refeição cheira muito bem e tem uma aparência espetacular, porém não lhe apetece; nada ali lhe apetece, e ao contrário da comida, o cheiro e a aparência de sua esposa lhe são repugnantes.
E mais uma vez ele é tomado por um impulso febril, incontrolável e violentamente esmurra a esposa na cara. A força é tamanha que a arremessa ao chão. Abatido o primeiro obstáculo, ele olha em volta ansioso à procura da próxima vítima - o filho corre para o quarto enquanto a pequena esconde-se debaixo da mesa. O que lhe traz um grande alívio:

— Ah, nada como filhos bem treinados! Filhos e cachorros! Que maravilha! - E dizendo isto se levanta e vai até a geladeira em busca de uma refeição decente:
— Hm, sorvete! Querida, onde guardamos os biscoitos? Ah, sua estabanada, o que faz no chão? Vamos, deixe-me levantá-la, assim, pronto! Você está tão... abatida, deveria retocar a maquiagem, como faz a Srta. Menial! E você menina, isso são horas pra brincadeiras? Saia já debaixo da mesa! Crianças...

Ele se senta confortavelmente em sua poltrona favorita e saboreia a agradável e deliciosa refeição de sorvetes, biscoitos e confeitos coloridos!

— Ah, que belo dia de trabalho! Quanta satisfação!

Ao terminar a refeição sente um enorme vazio – certamente não vem do estômago – mas sim o tipo de vazio que um artista sente quando percebe sua obra incompleta. Isto o inquieta!
Ele percorre os cômodos da casa, procurando por sabe-se lá o quê. Confere sua agenda mental, atentamente e de repente percebe o que esquecera: ‘Obrigações profissionais, claro!’
Ele sorri e caminha até o banheiro; abre o armário e de lá tira uma caixa de madeira relativamente antiga que ele nem lembrara possuir, mas soube exatamente onde encontrar.

Abre a caixa, confere o conteúdo e sorri satisfeito por estar intacto! Olha-se no espelho e diz para si mesmo:
— Só mais este trabalho e meu dia estará completo!
Recorda do que lhe dissera a última paciente - sigilo profissional - olha-se ao espelho, sorri...

40 segundos depois e... Pronto: missão cumprida!

O filho ouve o tiro, a filha encontra o corpo, a mulher limpa o sangue: chão, parede, teto e espelho.

E a secretária cuida dos detalhes:

— Alô, é do jornal? Sim? Olá, aqui é a Srta. Menial, eu gostaria de modificar o anúncio do Dr. Shoji – não, não, a página está ótima! Isto, obituário mesmo, só precisamos de uma leve alteração no texto, assim: ‘Para que o seu nome não esteja aqui amanhã, o meu está hoje – DR. KAGAMI SHOJI - amado pai e esposo’ Sim, é só isso. Arigatou gozaimasu.

domingo, fevereiro 08, 2009

CRÔNICA - Quebrando a Concha

domingo, fevereiro 08, 2009 0








Publicada no Caderno Mulher/jornal AGORA em Fev/2009 Ilustração: Jairo Tx










Um belo dia você acorda. Parece um dia normal, você parece normal, até que acontece, assim de repente: as paredes se fecham sobre você e o chão some sob seus pés – o ar é pouco para tanta gente, você não deveria estar ali. Precisa correr, fugir para um lugar mais seguro, longe de toda essa gente, do lixo e do barulho que elas produzem!

Não é mais um dia qualquer e você “sabe”, você sente:
—Tem alguma coisa muito errada acontecendo com você, em você, neste exato momento!

Você tem a certeza que este dia, este momento será o seu último — mas não é! “Ufa, que alívio” — embora “alívio” seja o que menos se sente — o medo é o único sentimento, vibrante, palpável. Medo de que aquilo volte a acontecer, “medo do medo”.

Os dias se passam, o socorro vem — investiga, tenta concertar o que quer que esteja errado em você — e depois de gastar algum tempo e dinheiro (seus), submetendo-lhe a todo o tipo de aparelho, eles concluem:

— Seu corpo está perfeito!
— Mas como assim? O que foi aquilo?

Bom, você sabe que eles fuçaram bem, eles e seus estranhos aparelhos — você sabe, afinal, infelizmente você estava lá — E é aí que o medo cresce ainda mais, pois se seu corpo está bem, então o que foi toda aquela dor no peito, a falta de ar e a sensação de morte iminente? Fruto de sua imaginação?

— Eu não desejaria isso nem ao meu pior inimigo — você pensa — muito menos para mim! Quem em seu juízo perfeito faria algo assim? Auto-sabotagem das brabas!

Saiba que há muito mais coisas acontecendo em sua cabeça “do que julga a sua vã filosofia” e isso, pode ser uma delas: a tal “síndrome do pânico” — S.P. para os mais íntimos — não queira ser um deles, ela é uma péssima companhia, eu garanto!

Você não sabe dizer ao certo como isso começou, nem quando ou porque, mas agora, de repente, achou esta concha ela lhe parece tão segura, tão confortável. Você então a veste e começa a torcer: Para que ninguém lhe note, ninguém lhe chame, ninguém se aproxime — e pouco a pouco seus desejos se tornam realidade — sente o mundo se fragmentando...

... Parte lá, feito de pessoas, cores e sons. Colorido e barulhento como o mundo da Tv, onde você é um mero telespectador.
... Parte aqui, onde ninguém mais pode ver. O lugar mais seguro do mundo, o SEU mundo. Você se tornou uma prisão viva!

Já faz tanto tempo — dias, meses, anos, impossível definir — não há calendários ou relógios dentro da concha, só há você e o medo. No princípio você espia o mundo pela pequena abertura da concha, depois se contenta em ouvi-lo. Tão turbulento quanto o mar — Pra que falar em meio a tantas vozes? Ninguém escuta. E se escutassem, não me entenderiam... Melhor fechar a concha. — E assim, o tempo passa...

Ninguém parece ter notado. No início é perfeito! Mas, como dizem os mais sábios: “Cuidado com aquilo que deseja!” Com o tempo a concha se torna tão cinza por dentro, tão fria, tão vazia...

— Ao menos é seguro aqui — você se agarra a essa verdade, como se ela fosse a única. Até que surge a tempestade...

... O mar fica revolto, a concha treme, quebra e a água começa a inundar seu interior. E o lugar “mais seguro do mundo” se foi...

Agora, lá está você: exposta ao grande mar, onde estão todos os outros, todas as coisas — as que você mais ama e as que você mais teme — mas há muitas outras coisas; coisas que você sequer via, afinal, a concha não tinha janelas!

Você abre os olhos, devagar, receoso e... “uau”— Percebe que há milhares de conchas no mar, algumas semelhantes a sua, outras até piores: enterradas na lama, seres totalmente invisíveis aos olhos do mundo.

E há tantas coisas sobre o mundo que você não sabia! Tantas cores, sabores e sons, tantas nuances, seres de todo o tipo, pessoas que se importam — Sentimentos — Você percebe que fazia falta... Percebe que sentia falta... Você sente. E a vida parece voltar a pulsar em você — uma fagulha que sempre esteve ali, abafada, agora brilha e arde em chama — você sorri e corre ao mar:

—Vamos quebrar as conchas! — as conchas imaginárias.

As paredes da prisão às vezes são muito duras para se derrubar sozinho, mas adivinha: por mais que se tema, por mais que se tente, nunca se está inteiramente sozinho.
— Quebre a concha!

P+2T: Especial Erótico! Baixe o seu.

Curtiu? Curte lá: P+2T no Facebook

Ou siga por email, inscrevendo o seu aqui:

 
◄Design by Pocket Distributed by Deluxe Templates
Blogger Templates