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sexta-feira, março 30, 2012

Ao infinito

sexta-feira, março 30, 2012 0
a minha estrela
que ainda não nasceu.
by McKean

E então
agora
tudo o que
falta a mim
parece
tão pouco

e a ti?
um mundo todo
inteiro
novo, ainda
cheio
de encantos

e eu, os temo
por ti
alguém há
de temer para
que não te seja
assim preciso

não quero
quebrar
os diamantes
recém-lapidados
nem ofuscar
as estrelas

tuas
as estrelas
de agora
em diante
são todas
tuas

ainda que
no céu permaneçam
distantes
brilhantes
como devem
ser

e quando teus
pequenos olhos
as procurarem
na escuridão
elas estarão

lá, em seus lugares
pequenos
buracos
no teto
do mundo

e se perguntares
de onde vem
a luz
que enfraquece
o breu

jamais encontrarás
uma resposta
e a dúvida
[tua maior herança]
moverá tua vida
rumo ao infinito.


como eu
jamais 
seria capaz
de fazer
não fosse
por ti.

sábado, março 24, 2012

De pátio cheio

sábado, março 24, 2012 1
Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo

Animais estão em alta! Tanto na população que circula nas ruas, quanto na internet − cair na rede já não é privilégio de peixe. A moda agora é ser cuidador − de bicho, obviamente. De nada adianta tratar de idosos ou de crianças saudáveis, portanto, se o fizer, que seja na clandestinidade, afinal, isto não conta pontos: o alvo tem que ser um cão ou um gato - de preferência, vários! E eles têm que, obrigatoriamente, vir das ruas! Não ouse divulgar a foto de seu cão de raça, bem tratado, passeando de coleira personalizada ou de seu gato branco de pelo longo, aquele que precisa de mil escovadas diárias e ração especial para não engasgar com o próprio pelo, deitado numa linda almofada de cetim − blasfêmia, sacrilégio, absurdo! E por quê?

Animais confinados em gaiolas minúsculas de pet shops, separados de suas mães e exibidos como se fossem objetos são menos merecedores de um lar que aqueles nascidos ou abandonados na sarjeta? Será que alguma vida tem mais valor que outra? A questão não chega à tamanha profundidade. Não se trata dos animais (raramente se trata deles), mas, sim, do ego de seus donos. 

A filosofia de que "fora da caridade não há salvação" é agora vinculada a outra bem menos nobre: a de que "se não contar, não conta". Ainda bem que as redes sociais estão aí para que se possa avaliar − mediante curtidas e comentários vazios − o quão bom se é! "Bom" enquanto sinônimo de popular. E quanto mais feio e empesteado for o animal resgatado, melhor para a índole do “regatador”!

O mesmo é válido para quem adota uma criança: se ela for bonita e saudável, sem que tenha sido vítima de maus-tratos uma vez sequer, não conta. Há quem vá além e abomine a produção de filhos naturais, afinal, já há tanta criança parida no mundo... Cabe a quem não as teve, mas as quer, a responsabilidade de lidar com a irresponsabilidade de seus pais e do governo com suas políticas e instituições falidas. Mas crianças não estão na moda, não percamos nosso precioso tempo nos preocupando com elas − não até que estejam!

Para ser virtualmente considerado um bom cuidador de animais, é preciso adotar − e quanto mais, melhor! 

Para isto, basta ter um pátio! Afinal, eles comem qualquer coisa, nunca adoecem, não precisam de atenção ou carinho, já que, sendo muitos, entretêm uns aos outros. Os filhotes praticamente se criam sozinhos, e os idosos só procuram um canto onde esperar a morte chegar. Tudo que se precisa é de um pátio e... Pronto: ponha nele quantos animais couberem. E não se preocupe − jamais se preocupe − se o espaço parecer insuficiente - um pátio é igual coração de mãe, sempre cabe mais um. Veterinário? Quem precisa de um desde que inventaram o Google?

Fora da rede, a coisa não é tão simples... Mas isto pouco importa, porque, na verdade, animais não estão em alta. Tê-los como troféu de bom-cidadão é que está. Algo não menos egoísta que adquirir uma criança na África e exibi-la nas capas de revista de todo o mundo.  

Cada um usa a pá que tem para preencher seus próprios buracos. O material que constitui a pá e aquele que é por ela conduzido é que variam, mas os buracos... São sempre os mesmos. Todos nós os temos, em diferentes graus de profundidade. 

Pena que nem todos tenham pátios: um pouco de terra onde se possa cavar, um lugar para se encher com formas de vida, tentando, assim, fazer da própria menos vazia − no mínimo, uma boa terapia!

quarta-feira, março 14, 2012

Do poeta

quarta-feira, março 14, 2012 1
Pelo Dia Nacional da Poesia
Tired Poet [reprodução, da web. A fonte seria bem-vinda!]

O poeta é um sujeito
estranho que sofre
secretamente agradecendo à [má?]
sorte que o leva a escrever algo
maior que as pequenices vividas

E ao concluir a árdua tarefa
de lapidar dores em versos
talhados para que pareçam piores
ou melhores, mas sempre distantes
da realidade ele expressa:

"Eis um novo poema
e isso é tudo
o que mais (?)
me importa (?)
nesse mundo de merda"

Se o poeta mente (?)
sempre e mais
para si mesmo
não o faz por maldade
talvez por indiferença

Ou talvez ele apenas
não saiba como
suportar verdades
tão fatais e alheias
aos sonhos

Por pior que sejam
os poetas e os sonhos
são ambos feitos
da mesma matéria
saibam eles ou queiram ou não.

sábado, março 10, 2012

Qualquer uma é uma

sábado, março 10, 2012 0
Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo
No dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos de Nova York reivindicavam melhores condições de trabalho quando foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada, matando cerca de 130 delas carbonizadas. Porém, foi em 1910, 53 anos depois, durante uma conferência internacional feminina realizada na Dinamarca, que a data foi proposta como "Dia Internacional da Mulher", passando a ser reconhecida oficialmente pela ONU somente em 1975.

Desde então, todos os anos, neste mesmo dia, diversos países promovem conferências, seminários e ações sociais com o objetivo de valorizar e discutir o valor da mulher na sociedade atual e a desvalorização que, apesar de todos os avanços, ela ainda sofre: os salários ainda são menores e as exigências, maiores, quando comparadas a homens que desempenham a mesma função. Sem falar na jornada dupla de trabalho, uma vez que continuam sendo elas as principais responsáveis pelos afazeres domésticos – jornada esta que vem sendo sobrecarregada por muitas, na busca por qualificação profissional ou realização pessoal acrescentando “aluna” ao rótulo da mulher moderna.

Multifacetada é pouco para descrever tamanha capacidade feminina

E apesar dessa grandeza, muitas ainda são diminuídas pela insegurança alheia – não somente masculina – extravasada sob a forma de violência física ou moral. Nem todo abuso deixa hematomas visíveis, mas todos marcam na pele. O preconceito é um dos mais perigosos tipos de violência, pois chega de forma imperceptível, atua sorrateiramente e age pouco a pouco, tal qual veneno. Triste quando este é destilado pelas próprias, umas sobre as outras, como tantas vezes é:

Se uma mulher não é vista com namorados, é lésbica; se é lésbica, é porque não foi “pega de jeito” por um homem; se é vista com diferentes homens, ainda que seja solteira, é vagabunda. Se não tem vaidades, é relaxada; se é muito vaidosa, é fútil; se tem um visual descolado, é lésbica (logo, não foi apresentada para o “cara certo”); se é recatada no vestir, ou é pudica ou crente (o que, para todos os efeitos de generalismo barato, dá no mesmo). Se for assumidamente sexy, então... É da pior laia: “tá pedindo para ser estuprada” – e assim, a ignorância sem tamanho faz das vítimas, culpadas e dos culpados, vítimas de seus “instintos naturais incontroláveis”, como se todo homem fosse um selvagem disfarçado de cidadão, prestes a rasgar as roupas e romper com as civilidades quando provocado ou liberado – seja pelo álcool ou  poroutra droga qualquer – de suas travas comportamentais... 

“Coitado, não pôde evitar: foi ela quem o seduziu!”.

E a menina que bebeu demais ao ponto de não poder verbalizar um “não”, automaticamente está dizendo sim para o que vier. “Culpa dela! Não devia ter bebido se não queria ser comida!”. Já ele, pode tudo e não é responsável por nada, afinal, agiu “conforme sua natureza”. Isso faz de todos os homens psicopatas latentes e de todas as mulheres – que por um instante de distração se tornem vulnerável ao lobo que neles vive – putas. Se fosse mesmo verdade, não haveria crimes sexuais em países muçulmanos onde as mulheres têm suas “tentações” devidamente cobertas por burcas. Mas há as que deixam os olhos à mostra... Vai que se maquiem demais ou pisquem de forma inapropriada... Pobre dos homens, sabotados em sua luta constante por conter a besta fera!


Em protesto ao absurdo dessa linha de pensamento, diversos países têm aderido ao movimento "SlutWalks" ou “marcha das vagabundas”, criado em protesto contra a declaração infeliz de um policial durante uma palestra para a universidade local de Toronto, Canadá, sugerindo que as estudantes do sexo feminino deveriam evitar se vestir como "vagabundas" para não serem vítimas de assédio sexual. Desde então, as passeatas lá iniciadas e organizadas através das redes sociais, vêm ganhando o mundo – e já chegaram ao RS! Nelas, mulheres vestidas de forma propositalmente provocativa protestam pela liberdade de se vestir e se expressar. E se isso faz delas vagabundas...

Eis que o termo tornou-se um elogio e tanto!

Ainda que a olhos maliciosos uma mulher pareça “uma qualquer”, uma qualquer merece o mesmo respeito que qualquer uma! Assim como qualquer outro indivíduo, independente de qualquer outra coisa – sexo, idade, cor, inclinação política ou sexual – pois qualquer um é único e nada justifica a violação de sua unidade, liberdade, corpo ou privacidade.  
Marchemos, bitches!

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