[P+2T] Ebook Erótico #2: Download gratuito!

sábado, dezembro 31, 2011

Contagem regressiva

sábado, dezembro 31, 2011 1
Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo


Chegamos ao fim de mais um ciclo: um período de 365 dias distintos, o tempo distribuído em porções tal qual gavetas de um mesmo armário ao qual chamamos de ano. Chegamos ao fim de mais um ciclo e, consequentemente, o começo de um novo. Nessas horas, as últimas que precedem o inverter da ampulheta, é preciso criar espaço para guardar aquilo que está por vir: limpar gavetas, ainda que metafóricas.

Dizem que papel velho estagna a vida - não só guardar um punhado deles, mas ocupar um que já não faça sentido, também - e quanto a acumular sentimentos inuteis? De vez em quando é preciso fazer uma limpa em todos os espaços onde o passado se esconde. Abrir os armários e neles, caixas lacradas e nelas, envelopes propositalmente esquecidos e nestes, velhas feridas.

De vez em quando, é preciso se desfazer de um tanto de bagagem e do peso que ela acarreta...

...largar tudo aquilo que não já presta, que só faz ocupar espaço para, então, seguir em frente com passos leves e mãos livres para segurar aquilo que realmente importa - ainda que fossem bonitas as caixas, ainda que os envelopes guardassem em si lembranças mumificadas, tal qual um sarcófago de memórias.

Por mais duro que seja o exercício do desapego, de vez em quando é preciso encará-lo, antes que tenhamos que fazê-lo involuntariamente. Com o tempo e a prática que ele traz, acaba-se por descobrir que chorar não derrete, não mata, não achata, mas que sufocar por muito tempo um grito na garganta pode nos emudecer de vez. E que pôr o outro sempre em primeiro lugar acaba por nos tornar o último - e não se pode ser o último na própria vida.

É triste que o endurecer seja parte tão importante do amadurecer, mas, é: ou se aprende a parar de sofrer as dores alheias, dores passadas, dores por nós mesmos alimentadas, e lamentar por derrotas que jamais serão mudadas, ou se é esmagado lentamente de dentro para fora, até que só reste uma casca fina que qualquer sopro leva ao longe. Em um dado momento o endurecer se faz necessário:

É preciso manter raízes fortes presas ao chão e, ainda assim, crescer... ser alto o suficiente para ver - e ter olhos abertos a reconhecer- a beleza do enorme céu que faz de nós tão pequenos.

De vez em quando é preciso desfazer-se e começar tudo de novo. Comecemos logo a contagem regressiva, deixando para trás todos os números até que só reste um - no fim, vale lembrar que somos ímpares - 3, 2, 1:

Feliz Ano Novo!
***

NOTA DA AUTORA: Completo neste ciclo três anos de participação no caderno Mulher - e na chegada do novo, três anos de P+2T! A todos os leitores que me acompanham lá e cá , meu muito, muito obrigada!

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Olhos de vi-ver

quarta-feira, dezembro 28, 2011 0
[autor desconhecido]

Bom que em alguns largos passos e passares de tempo
se possa fazer dos olhos grandes. e das miniaturas
que neles vi-viam [?], gigantes

E ao se ver no tamanho
certo que se deixe de pensar pequenezas

E que no piscar de ambos, diluir-
-se vá aquilo que já pareceu bem maior

E que os olhares não mais se entreguem
a vãos, riscos ou incertezas

Bom que se possa dar às minituras liberdade de partir
e que com elas se deixe livrar de quaisquer grande pesar
pequeno cisco ou criatura - quer seja de agora ou de antes.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Vida em movimento

segunda-feira, dezembro 26, 2011 0
[ou "Desejos de uma vida ou duas"]
Autorretrato, Ju B.



Quando é chegado um dado momento]

às vezes percebo um movimento
leve que vem de dentro
do meu ser

e dessa vida meio minha
que carrego bem
sozinha

penso que, por ora, ela é tudo
que me basta e me arrasta
mas a hora passa

e vejo meu desejo crescer assim
como o abaular do ventre
e o abastar do colo

e neles existe mais espaço
pessoas, há até mesmo
um 'eu'

que deseja ver além dos próprios pés
e andar com eles levando outros
pequenos por cima

ao menos até que eles cresçam
e se tornem ainda maiores
que os meus

passos, lado a lado seguiremos sempre
ou talvez eu lhe siga um pouco mais
à distância

para nunca, jamais impedir-lhe o ir
nem ter que dele implorar
um vir

entre meus quereres lhe guardarei bem
perto, ainda que um dia fora
de mim

os medos, guardo também, sob a casca
que preciso para ser forte
como uma mãe [?]

certa de que, por maior que possa o amor ser
há um tempo que passa e não me cabe
a ele conter

a velha que morre enfim, a nova que trago em mim
há pouco e que só faz [tão bem] crescer
toda ela, toda eu

toda a vida quer nascer.

Entre sinos e grilhões natalinos

Conto escrito para a REVISTA SAMIZDAT
Ilustração de Jairo Tx
Tomo meu remédio com uma dose de martini. Não que eu precise do primeiro ou goste do segundo, mas eram os favoritos dela. Não lembro de a ver fazendo desse jeito, mas esse é o meu jeito de dizer "I miss you, hun", como ela mesma diria.

"Martini combina com o meu vestido e com a decoração. Deveria ser eleita oficialmente a bebida do Natal! É por isso que eu adoro o Natal! Você não adora, hun?"


"Eu adoro você!"

As palavras soam de algum lugar entre o meu pensar e o ressonar dos sinos. Eles tocam ao longe... Muito longe para que eu possa vê-los, mas com força suficiente para alcançar os meus ouvidos. Ainda que eu não queira. Seu som me interpela e me ignora. Não passo de um obstáculo às ondas que passam.

Faz tempo que ela se foi. Tempo o suficiente para que as roupas com as quais a vesti já estejam fora de estação, mas não tempo o suficiente para que tenham sumido, consumidas pela terra, pelo tempo ou pelos vermes do esquecimento.

"Natal é tempo de recordar".

E quando será tempo de esquecer? Tempo nenhum é suficientemente longo para apagar certas memórias. Memórias de amor, de ódio, de dor. Sobretudo aquelas do que nem chegou a acontecer. Memórias forjadas  por planos, por desejos, pela utopia de um futuro jamais vivido. O tempo não as leva de fato, ele apenas as fragmenta em pedaços cada vez menores e os mistura, feito um mosaico.

Talvez um dia eu não mais saiba identificar nossos "quandos, ondes e porquês", talvez agora eu já não saiba. Mas ainda tenho o nosso mosaico e ele é tudo o que me resta.

"Como você pode me abandonar? Não era esse o plano!" 

Não falo sozinho, falo com um retrato, antigo e torto, pendurado na parede. Sou um clichê: a morte do espírito natalino. Ela certamente riria ao me ver num estado tão deplorável. Riria e depois abriria as cortinas e começaria a falar com seriedade, naquele tom que só as mulheres tem e que as faz parecer inquestionáveis  um tom que torna o mais duro dos dizeres doce e ao menos tempo irrefutável. Eu estaria perdido.

Pensando bem, estou perdido. Quase a vejo no balançar das cortinas. Ignoro o vento. Imagino as palavras que seriam ditas, mas não com força o suficiente para obedecê-las. Estou tão perdido quanto se pode estar. Como alguém que perde qualquer direção. Alguém que perde a vontade de seguir. Alguém que perde a si mesmo. Um corpo sem reflexo. Uma sombra sem corpo. Onde estou? Estou parado. Preso pelo medo de seguir por um caminho que não sei. Não quero seguir. Não quero saber.  Tudo o que quero é voltar a um tempo e lugar que nem sequer existem.

"Como você pode seguir sem mim?"

Tomo meu remédio com um copo de veneno. Nada tem efeito. Nada pode matar um homem morto. Nem trazê-lo de volta à vida  ainda se estivéssemos na Páscoa, mas é Natal. Outro maldito e estúpido Natal! Com todo o seu vermelho e verde, com seus estúpidos anjos e sinos.

A roupa com que me vestiram também está fora da estação. Mas não sinto frio nem calor. Não sinto fome, sono ou qualquer outra necessidade além dessa saudade de ser vivo. A saudade é uma necessidade não catalogada. Só estou aqui pelo desejo inútil de estar vivo. Pelo medo jamais ouvir novamente o badalar dos sinos, por mais estúpido que seja.

"Ao contrário de você!"

Já faz tanto tempo... Quanto tempo faz? E, afinal:

"onde diabos está você?"

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Apelo seco

segunda-feira, dezembro 19, 2011 0
by  L a u r a  L a i n e

Sufoco
em plenos
ar e pulmões
e no primeiro que dos segundos sai
ainda quente, quase úmido
como são [ou costumavam ser]
os corpos: entregues, perdidos
entre a volúpia e a alucinação
aspiradas em um momento recém-
comido, da vida
trazida, tragada em baforadas
ora circulares
ora disformes
até que de todo seque
a garganta e já não haja saliva
para trocar, para cuspir
para manter abertos os canais
por onde o ar precisa
correr para encontrar e preencher
a bolha que jaz

já quase murcha
no meio do ser.
sufoco
não por falta de meios
nem de ares que me impeçam
o colabar da bolha
mas por não mais ter
saliva
que me permita dizer
ao ar e a tudo aquilo
que me é precioso:
"venha e
faz-me nova-
mente cheia
do que quer
que seja
que preciso
para o dia-a-dia
inspirar e assim
re.viver"

domingo, dezembro 18, 2011

A fraude

domingo, dezembro 18, 2011 1
No
momento
em que algo
tão de perto se vê
que a sapiência se faz
crescer para além daquilo
que se queria do outro saber
caem dele a máscara e a fantasia
desfeitas independente da resistência
daquilo de que eram feitas e o que resta é
uma verdade crua, um corpo nu, a carne aberta
o caroço exposto ao constrangimento do próprio ser
e dos tantos olhos alheios que friamente lhe penetram
tal qual pequenos cacos que, enfim, lhe percebem de todo
a essência: da fraude que mora em toda e qualquer existência
[como chegar ao topo de uma escada para descobrir-se o fim e o nada mais]

Um mundo em Jaguarão - Parte 2

No final do sábado, 10, fizemos uma segunda rodada de Poesia no Bar - dessa vez, com a participação de premiados poetas uruguaios: Elbio Chítaro [Palavras rotas], Gerardo Ciancio [Cieno] e Andrés Echevarría [La sombra de las horas].

Conduzindo 'os trabalhos' da noite, estava o grande Jorge Passos - fica aqui o registro de uma de suas leituras - "Lixão":



Bom, poesia no bar, quando no bar mesmo, tem que ter, entre outras coisas, mto barulho! Assista - e aumente o som para também ouvir - esta Ju Blasina aqui recitando o poema "Saber-se":



Muito obrigada a todos com quem por lá tive o prazer de interagir! 

Fico muito feliz que tenha sido este o primeiro evento cultural em que levei meu rebento, ainda na barriga! Voltei com a mala e a cabeça cheias: de livros, de memórias, de novas coisas adquiridas - todas excelentes!

Posso dizer que voltei renovada! 
Foto by Ju B.

P.S.: E parabéns ao autor fronteriço Aldyr Garcia Schlee, patrono da 3ª Feira Binacional do Livro de Jaguarão, que acaba de receber mais um Açorianos, na categoria Narrativa Longa com sua mais recente obra "Don Frutos".

Beijos mil
JuB.

sábado, dezembro 17, 2011

Um mundo em Jaguarão - Parte 1

sábado, dezembro 17, 2011 0
O último final de semana da 3ª Feira Binacional do Livro de Jaguarão foi simplesmente SENSACIONAL - como desconfio que tenha sido todo o evento!

Na sexta [dia 09] à noite, o lindíssimo Bistrô Almazen recebeu um bando de poetas de diversas partes deste pampa e ainda o português Paulo José Miranda, num encontro que entrou para a história da cidade e daqueles que por lá tiveram a felicidade de estar! Eis algumas fotos de um Poesia no Bar especialíssimo:

Daniel Moreira, Valder Valeirão, Alvaro Barcelos (todos 'idos' de Pelotas) e eu, no Menu ;]
Eis agora um pouco do que o "Muito mais" no menu da noite se referia:
[Carlos Di Jaguarão] E as leituras começam!
Jorge Passos - Jaguarão
Carlos José de Azevedo Machado - Jaguarão

Poeta Português, Paulo José Miranda
Pedro Gonzaga - de Porto Alegre
Martim César - Jaguarão

O público...
...atento!
"Quixote e seu cavalo, com lança e armadura..." - O Sonho de Cervantes, por Caminhos de Si [acesse e conheça mais]
Final da performance do Caminhos de Si e do desenho de Jairo Tx
------------------------------------------
E no sábado à tarde, tivemos um bate papo maravilhoso com a participação das uruguaias Marisa Bentancur e Virginia Lucca - uns amores! Também estavam presentes na casa de Cultura de Jaguarão: Daniel Moreira e Valder Valeirão [de Pelotas], Jairo Tx e eu, Ju Blasina [por Rio Grande], Jorge Passos e Maria Fernanda, de Jaguarão. Falamos sobre teatro e literatura e fomento às artes e as [duvidosas] iniciativas governamentais de incentivo à cultura e a necessidade de se alimentar o [bom] gosto 'pela coisa toda' e o papel da rede [web, internet] dentro dessa grande rede e do nosso, que dela fizemos uso como leitores e autores, em meio a isso tudo: das responsabilidades da autopublicação, da atenção pelo onde, como e o que se posta.
Foi uma tarde daquelas de se sair tapando os ouvidos: para que tanta coisa boa recém-adquirida não caísse acidentalmente pelos buracos da cabeça!

E assistimos ainda a alguns vídeos produzidos por Jorge Passos e o povo da Confraria dos Poetas de Jaguarão [◄ clique e visite o blog] - bateu até uma vontade de me mudar para lá só para fazer parte da trupe! Como diria um deles, ou todos, em uníssono:
"O poeta, enfim, é um caranguejo que se libertou do balde!"
- Ode à Confraria, de Martim César

 ...continua...

À mulher do banheiro da rodoviária

Minutinho de atenção, por favor: A crônica "Conversas Transversais", publicada no caderno Mulher Interativa [Jornal Agora] da semana passada, foi erroneamente atribuída a mim, quando na verdade a autoria é de Silvia Oliveira. Estive fora na ocasião e não a li. Só fiquei sabendo disso ontem, ao ouvir meu médico comentar sobre algo que eu supostamente teria escrito. // Lembrando que colaboro com o caderno quinzenalmente, logo, neste sábado/domingo, sim, o espaço é meu. Grata!

Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo


Quinze minutos - esse era o tempo de que dispunha para sair de um ônibus, comprar as passagens e seguir, em outro, o caminho de volta para casa. Seria um tempo razoável, não estivesse eu grávida, isto é, cheia de urgências: de um banheiro, antes de tudo!

A necessidade de ir ao banheiro em todo e qualquer lugar é um tremendo desafio a alguém que nunca antes usaria outro, senão o seu [e por conta disso colecionou diversos problemas de saúde ao longo dos anos]. E lá fui eu, viver perigosamente, em busca do banheiro da rodoviária. Argh!


Tudo é suspeito em banheiros públicos. Nem mesmo as mulheres se parecem com as das ruas.

Ou por serem muitas as que evitam este tipo de lugar, exceto quando a necessidade é extrema (eis o meu caso) ou por se mostrarem diferentes quando flagradas em tal lugar - constrangidas, disfarçadas, apressadas, brigando por um pedaço quer seja de espelho quer seja de papel, na ânsia por um assento livre - a irônica privacidade da privada pública.

Mal abri a porta do feminino – com o cotovelo, minimizando a contaminação por contato – e me deparei com ela: a mulher que pede dinheiro no banheiro, figura clássica! Confesso que geralmente a ignoro – mexer em bolsa num lugar desses não é uma atitude muito esperta; confiar em mulheres de banheiro, menos ainda, afinal, são elas que escrevem as barbaridades ortográficas e pornográficas nas portas dos sanitários (numa assustadora coincidência, dias antes, naquele mesmo local, me deparei com uma em que dizia “te amo, Juliana”, mensagem acompanhada por um desenho nada romântico, embora parte dele até lembrasse um coração, se visto ao contrário).

Pois bem, lá estava a mulher do banheiro, repetindo incessantemente a mesma frase em que pedia um real para cada uma que parava em frente ao espelho (ou seja, a todas). Mas quando me viu, lutando pelo meu pedaço de papel-lixa, a frase foi outra: "moça, a senhora tá grávida [sic]?", respondi que sim, com a cabeça, "ah, eu tive um menino, faz seis dia [sic]". Eu, que detesto conversar com estranhos, ainda mais em banheiros, ensaiava dizer algo genérico, do tipo "que bom!", quando fui interrompida por ela, "oh, a minha cesárea" – dizia, enquanto baixava o cós da calça o suficiente para que eu visse a prova de sua verdade sob a forma de um corte ainda vermelho e mal-coberto por pontos que me causaram um arrepio indisfarçável. 

Estranhei por ela ter seguido com seu apelo às outras mulheres, que a ignoravam, e não a mim. Também, já não era preciso. Enquanto eu mexia na bolsa em busca de uns trocados no pouco que havia restado do que levara à viagem de compras para o meu bebê – as notas davam lugar agora a notas fiscais de um carrinho importado e vários produtos de nomes famosos – ouvi a mulher dizendo que precisava juntar seis reais, para comer, viajar ou talvez ambos, não entendi ao certo, estava atônita pela visão daquela cesárea ainda fresca. Em nenhum momento a ouvi falar o nome do seu bebê recém-nascido. Juntei algumas notas e entreguei a ela. "Ah, moça, muito obrigada, dá e sobra!"

Enquanto eu ia, finalmente, fazer aquilo que me levara até ali, ela seguia falando "já sabe o que é?" – “ainda preciso confirmar, mas acredito que seja menino”, respondi eu, sorrindo meio forçadamente e entrando muito apressadamente no cubículo da privada, sem tocar em nada. Ela seguia falando do lado de fora. Sua voz era suave e falava muito pausadamente, quase num sussurro, como quem se não quer atrapalhar. "Tudo de bom pra senhora. Viu, moça? que tenha uma boa hora. Saúde pro seu bebê [sic]" - ela dizia enquanto sua voz ia ficando distante, até que já não mais pudesse ouvi-la.

Segui apressadamente as minhas funções, para cá e para lá, naquela rodoviária tão podre quanto todo o resto, e não mais vi nem ouvi a tal mulher do banheiro – devia a ter deixado para trás, junto a ele, mas algo meu ficou perdido naquele encontro. E não me refiro à meia dúzia de trocados que para ambas tanto significaram, falo de algo que não foi dado, nem pedido, da eterna dúvida do não dito.

Ainda penso nela, em seu bebê sem nome nascido perto do Natal, em seu destino ou tragédia – sem um rei sequer que lhe presenteasse com qualquer bobagem. 


Será que lhe aguardavam numa manjedoura, numa incubadora ou em outra caixa qualquer? Talvez devesse eu ter perguntado mais que respondido, talvez não: perguntas só enriqueceriam o meu saber e nada além. E vai que dele ela só guardasse consigo a cesárea, a dor e a necessidade daqueles seis reais, sabe-se lá para quê. Quando nada se pode fazer, de que vale mais se dizer? De que vale? 

"De nada, mulher do banheiro da rodoviária", de nada.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Ferida

quinta-feira, dezembro 15, 2011 1
By Steven Kenny
Às vezes
eu sinto
[muito]
que nunca
vou deixar a dor
que te fiz [?]
passar

E isso
dói ainda
mais
por só doer
e não sangrar e não
matar e não fazer maior
ferida que se possa ver

Memórias são
como vermes
como dores
como algo que só nos faz
corroer num maldito desejo
de sentir, de saber e de
mais sofrer por [mal] vi-ver


Deixai cair toda a pedra ao chão
até que um dia, como tudo o mais
se torne apenas pó.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Alheio sorrir

quarta-feira, dezembro 14, 2011 0
Escrito logo após o encerramento do
[m a r a v i l h o s o] Poesia no Bar de Jaguarão [09/12/11]

Fotoarte by Ju B. [modelo desconhecida]


As pessoas sorriem
quando fazem
as coisas delas
são maiores
as pessoas sorrindo
enquanto eu
seria-
-mente
observo as pessoas
ao sorrir
isso as torna tão
[in] diferentes
isso se torna quase
meu. tanto que
no silêncio
que se faz [?]
lamento
ao ver o partir
daquele alheio sorrir.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Inf.forma.ativo

quarta-feira, dezembro 07, 2011 2
News, good news!
Oi, oi, ois! Hj, não trago um novo post literário, mas trago links para alguns:

A REVISTA SAMIZDAT está de volta! Yupis!!! Como acontecia antigamente, dia 07 é o meu dia de postagens, ou seja, hoje! E para comemorar "a volta dos que não foram", postei um conto inédito (que só trarei para cá na semana do Natal), com direito a ilustração especial do meu querido Jairo Tx. Confiram:

"Entre sinos e grilhões natalinos"
Um conto macabro. By Ju B ~ Revista Samizdat

Outra boa nova é a estreia de meu novo projeto [porque essa coisa de ser mãe de primeira viagem, curiosa e perfeccionista me mete em cada uma... ao menos assim, faço tanta pesquisa valer para mais alguém]:
Arte by Jairo Tx
Novo blog: andoGESTando [clique e acesse] 
Gerando, gerindo, gestando... Eu, ando!


Motivo para comemorar nesta semana também é a minha na participação num evento literário que cruza a fronteira dos pampas. Neste 'findi', levo o P+2T à:
3ª Feira Binacional do Livro de Jaguarão
[na volta, trago fotos, relatos e regalos de Rio Branco] 


Assim sendo, clique, leia e divirta-se - eu, certamente, o farei ;]

Beijus
Ju B.

sábado, dezembro 03, 2011

Enfeites & Embrulhos

sábado, dezembro 03, 2011 0
Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo
Mais um último mês se inicia. E com ele as mesmas funções de sempre ganham novos ares de urgência e seriedade. O velho "o que comprar para quem" está de volta, somando novos "quens" e gastos – de ideias, de tempo, de finanças, de paciência – a "tentativa obrigatória" de alimentar um guloso espírito natalino que, a cada ano, parece mais fraco – não por falta de quem lhe supra as vontades, mas de substância nelas.

Todos os anos, ele pode ser visto a vagar pelas ruas cheias e conversas vazias. Ele aparece tal qual um obeso Papai Noel sem fôlego para carregar o próprio saco – cada um deveria ser capaz de carregar o próprio fardo, e sem o auxílio de animais escravizados em trenós voadores! O espírito natalino é muito alimentado, porém, mal-nutrido.

E se pudéssemos dar e pedir coisas que não se pode vender ou comprar? Tudo seria diferente – não mais fácil ou barato, mas mais saudável. Se os pedidos fossem feitos de sonhos, de sentimentos, de crenças, o velho que representa esta época do ano teria outra aparência – talvez sem o famoso saco ou a barba branca... Talvez nem fosse velho ou nem mais existisse.

As lojas estariam vazias e as pessoas, cheias, no bom sentido,
e não o contrário.

Quando fazemos listas, corremos às lojas, esvaziamos os bolsos e lotamos nossa árvore falsa com enfeites e embrulhos toscos, muitas vezes esquecemos que tão valoroso quanto o conteúdo é o pacote que o guarda. É ele quem o apresenta, quem o introduz e causa a tão importante primeira impressão – um pacote que guarda um presente é, na verdade, uma promessa, um sonho, uma esperança, um futuro: o tempo que ainda não veio, que está eternamente prestes a ser, mas que nunca de fato acontece, pois aquilo que acontece chamamos de "presente". 

Dessa forma, o futuro é o embrulho de um presente, e o presente, por sua vez, um embrulho rompido, um futuro irrompido! Pouco antes de nascer, somos um futuro guardado no ventre de outra vida.  

E na barriga de cada mulher que espera está o embrulho de um novo presente que, antes, precisa romper a barreira que o separa de seu futuro, para, enfim, ser 
– e poderia estar aí uma bela explicação para todo o simbolismo natalino, mas, infelizmente, não está.

Bom seria se pudéssemos cobrir os pés da árvore sem raízes que nos planta o Natal em casa com pequenas caixas de futuros: aqueles que sonhamos àqueles que amamos. E que eles, ao abrir os seus, assim como nós, ao abrirmos os nossos, recebessem o melhor e mais real de todos os presentes - o de ser feliz hoje e em tantos novos “hojes” o quanto permitissem os pacotes recebidos – e merecidos!

"Que cada dia seja uma riqueza vinda num belo embrulho a se romper" 
- eis o que diria sobre os meus pacotes - sob um largo e vermelho laço de fita.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Verdade universal

sexta-feira, dezembro 02, 2011 0
"Tire o seu sorriso do caminho
que eu quero passar [quero passar]
com a minha dor"
- Nelson do Cavaquinho


Poeta mesmo
sem fé
é
capaz de
ajoelhar-se
e rezar diante
da grandeza
de um pequeno
verso
ainda mais
triste
que o seu
pesar
desde que
traga em si
uma verdade
universal
sobre a dor
sobre o amor
sobre tudo
o que se pode
cantar
e num encanto
afastar
todo o mal.


"Silêncio, por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito"

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Sê voz aos teus ouvidos

quinta-feira, dezembro 01, 2011 1
Autorretrato por JuB.
Sou sempre tão mal
interpretada por ter
grandes a ânsia
e as verdades a saltar.

sê em torno de ti

há tripas de todo o tipo
e se nem tu nem elas
podem me ouvir
por que tanto dizer?

sê tudo o que importa

guardo agora na barriga
embora me negue
a conversar com um umbigo
surdo, só para aparentar

sê melhor que pudera antes ser.

é a espera a mais sábia
das decisões.
guardo na boca
as mais belas:

palavras a contar
e versos a cantar
aos teus ouvidos.
                                                                e assim, enfim, a voz

                                                                e tudo o mais em mim terá sentido.

P+2T: Especial Erótico! Baixe o seu.

Curtiu? Curte lá: P+2T no Facebook

Ou siga por email, inscrevendo o seu aqui:

 
◄Design by Pocket Distributed by Deluxe Templates
Blogger Templates