[P+2T] Ebook Erótico #2: Download gratuito!

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Poema de uma vez só

segunda-feira, dezembro 27, 2010 3
Ilustração by Kmye Chan

Tenho pensado muito
em nós
nas horas
mais impróprias
e intermináveis

como são todas as horas

em que

sinto eu
a ti e a mim, mas
de fato, não estamos.

temo por isso.

e te guardo
e escondo e
me envolvo em
versos já sem rimas.
bem melhor

assim...

fico eu
a imaginar dez
mil possibilidades
de caminhar
sem pisar

sobre a cabeça

mãos e pés
corpo e membros
de todos aqueles
que me tem
amor


imagino

a nós
todos
uma vez sós
separadamente
unidos. únicos

o que seríamos?

talvez fragmentos
de mentiras não contadas
horas, minutos e segundos
de solidão.
talvez...

um dia

o tempo nos mostre
tudo: mentira, verdade
tudo. ou mate a
todos nós
de uma só vez


Eu, na certa, morreria sorrindo.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Clichê

quinta-feira, dezembro 23, 2010 1
By Ju Blasina


















Adoro te ver
comprando
pincéis
lápis
estranhos e coisas
de papel
e riscando neles
e sujando todos
os dedos

não foi
por acaso
que casei com um
artista
que odeia
rótulos, assim
como eu
também

adoro o nosso
clichê!

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Bukowski, meu amor

quarta-feira, dezembro 22, 2010 0











Ando

a ler
muito
Bukowski
e paro
pensando nele

também

durmo
lendo Bukowski
acordo lendo Bukowski
rio tanto lendo Bukowski
e choro outro

tanto além, por nós

sozinha
lendo Bukowski
gozo
lendo Bukowski
sempre

lendo Bukowski, lendo

e só
às vezes deito
sobre ele
mas agora
o chamo de


Hank, o safado


então, me diga
se isso
não pode ser
amor
quem sabe

é um vício

trago um
Bukowski sempre
comigo, mas no fundo
é ele quem me tem
enquanto o levo, macio

em minhas mãos.

terça-feira, dezembro 21, 2010

Referencial

terça-feira, dezembro 21, 2010 0
Há um homem
que vive
distante
mas se mantém
sempre aqui, sempre
próximo
a mim
não que o queira, mas
assim o é
Imagem: Reprodução / Artista ?

e eu sinto
como
se o conhecesse
mais que a qualquer
outro homem
apesar dele
me ser
tão estranho

nem sei
se ainda
vive de fato
em algum lugar
além
do meu
pensar

só sei que
nada
sou dele
enquanto muito
ele é meu
ou seria

o contrário
para
o homem
que vive
distante.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Benquista

segunda-feira, dezembro 20, 2010 0
Ilustração by Audrey Kawasaki

Detesto ser aquela pessoa ingênua que, quando questionada "como vai?", responde sempre numa riqueza de detalhes que o interlocutor jamais desejou saber. E que, ao esperar por uma conquista, na ânsia de vencer, faz dos outros seus comparsas, imaginado que a torcida lhes será benéfica, benquista - nunca é. Ela não faz de sua vida um segredo, pois não pode, não quer. Nem saberia como fazê-lo. Há muita solidão nos segredos. Mas não se engane. Não perca seu tempo nutrindo por ela pesares. Não há nada de inocente na ingenuidade descabida, no excesso de dizeres, na carência - de afetos, de prudência, de sentidos. Detesto ser aquela pessoa, mas, ainda assim, o sou. E não há nada que possamos fazer a respeito disso.

sábado, dezembro 18, 2010

(Con) Tradições Natalinas

sábado, dezembro 18, 2010 0
Ilustração by Lorde Lobo
[Publicada no caderno Mulher Interativa - Jornal Agora/RS - Dez/2010]

Todo ano é a mesma coisa. Somos pegos de surpresa pelo aviso encarnado, estampado nas vitrines de todo o lado: outro Natal se aproxima! A princípio, tal aviso nos parece tão sem propósito, inadequado e exageradamente adiantado, como se fossem precisos dois meses de preparação para uma única noite do ano... E seguimos os dias ignorando – ou tentando fazê-lo – todo aquele vermelho e verde que num ano é coberto por prata, noutro por ouro e, sobre eles, as luzes que piscam psicodélicas.

É sempre a mesma riqueza... de detalhes, cores e presentes rodeando uma árvore de faz-de-conta.

Semanas passam, até que somos relembrados do aproximar da data pelo “ho ho ho” de um estranho Noel com ar de empalhado, nada convidativo, na recepção de um estabelecimento qualquer. Seria um péssimo trabalho de taxidermia, diga-se de passagem. Péssimo também é o senso publicitário de quem ali o pôs! A menos, é claro, que a intenção fosse intimidar os transeuntes, fazendo-os correr à loja mais próxima em busca de abrigo e, na passada, alguma bugiganga, só para não perder a viagem, afinal, semanas se passaram e, quando se trata de Natal, é preciso economizar tempo – são tantos os presentes a planejar... E outros tantos que ainda surgirão por necessidade de última hora: um amigo secreto, outro que se aconchega, mais um pequeno grupo que se reaproxima. Por isso, sempre que possível, compre um presente extra, um coringa: neutro, sem destinatário prévio, nem qualquer significado incluso.

Economize tempo, pois dinheiro... é utopia.

Economia doméstica em tempo de Natal é uma ilusão tão grande quanto o próprio dinheiro o é: um montante – nunca tão grande quando se anseia – de folhas de papel com valores estampados, números que dançam apressados, que sobem e descem num saldo bancário, que mudam de lado perante uma vírgula e que, a toda hora, ganham e perdem sinais – negativo para o seu desespero, positivo para a sua alegria.

Questionar o valor que atribuímos às coisas que nos cercam é, quase sempre, um pensamento bem-vindo, mas não no Natal... Natal é tempo de praticar o desapego x o consumismo. “O que importa é o valor simbólico”, mais uma bela utopia! Experimente presentear as pessoas com uma caixa cheia de simbolismo, e nada mais. Poucas entenderiam o recado – provavelmente aquelas de valor inestimável, quem dão razão a utopias e preferem o cartão ao presente. A grande maioria tende a apegar-se ao simbolismo de uma etiqueta repleta de valores numéricos.

Ah, a contradição... Maior e mais celebrada tradição do Natal! 

Expressamos sentimentos por meio de mensagens prontas, celebramos a vida com a morte sobre a mesa, compensamos a ausência de todo um ano sob a forma de um presente... Quando o maior presente que se pode dar a alguém é estar presente, se não sempre, ao menos nos momentos mais importantes. Se não em corpo, em mente, em alma, em coração, ou videoconferência – tempos modernos, soluções práticas. A ausência integral torna-se a cada dia mais indesculpável!

Agora, se você nem sequer sabe quais foram os eventos que marcaram o ano daqueles seres tão especiais que compõe a sua lista de presentes... Bem, sugiro que providencie um embrulho bem bonito para o monte de nada que seu pacote irá representar. Uma fita vermelha e verde é bem adequada. E nem adianta esquecer-se de retirar a etiqueta.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Cisma Noturna

sexta-feira, dezembro 17, 2010 0
Tem gente que tende ao vício. Eu, tendo a obsessões.

A diferença entre o viciado e o obcecado é que o primeiro, mesmo sem querer, precisa, e o segundo, mesmo sem precisar, quer. O obcecado é o sujeito que cisma, teima e persiste, até.... enjoar - se não a si mesmo, a todos aqueles que tem a má sorte de rodeá-lo.  Eu, tenho essa mania de cismar com muitas coisas, constantemente - com coisas novas, sempre novas! Não dou a elas o tempo de envelhecer. E uma vez cismada, o trabalho começa - trabalho árduo, afinal, não tem moleza alguma no fazer uma mesma coisa repetidas e repetidas vezes até quase já não aguentar!

by Marguerite Sauvage

Mas tendo vasta experiência nesta coisa de cismar, não me abalo. Pego um embalo e sigo fazendo, seja o que for: a leitura desenfreada de toda a obra de um determinado autor, a contagem do montante de clips que encontrei perdido no fundo de uma gaveta... O hábito do cafezinho que, há anos, segue meu almoço, da taça de vinho para inspirar, e por aí vai.

    


Não dá para prever
quando uma nova
cisma surgirá
e, consequentemente,
não dá para evitá-la.




Imprevista também é a duração de cada nova mania - algumas, se vão na mesma rapidez com que vieram, já outras... Perdi a conta dos anos que bebo café acompanhado de um naco de chocolate, todos os dias, após o almoço. Talvez, aquilo que começou como apenas mais uma mania, tenha evoluído para vício - tá aí, nunca confirmei esse tipo de transição. É preciso mensurar a dependência do ato.

Existem coisas que se gosta, mas não se tem, não se faz, não se precisa. Outras que se odeia, mas repete, todo o santo dia. Minhas obsessões começam como algo que me agrada ao ponto de ser repetido. E de novo. E outra vez. E mais um pouco. Até que estabeleço algum tipo de meta subentendida dentro de minha cabeça. E a obrigação em satisfazê-la torna-se tamanha que o hábito vira obrigação - mania - e esta, sacrifício. E aí, pronto, a cisma está feita.

Eita coisa desagradável! Mas, cá estou eu, escrevendo antes de dormir. Mais um vez.

Peçonha

By Audrey Kawasaki

Desconfio que o teu amor
seja também o meu
veneno.
Pois me definha.

Teu beijo quente
disfarça a mordida
- saliva ácida

E eu, encantada
pela sonoridade
de teu sibilar
macio,

me (re) aproximo,
completamente esquecida
daquela última dor.

E novamente me sinto

inoculada - tua essência
a domar meus sentidos,
a tomar meu corpo,
a correr em minhas veias.

Não há
antídoto para um veneno
tão bem disfarçado de amor.

Chego até a acreditar,
pouco
antes de sentir o sangue
a ferver, a pele a enrubescer,

a vista, a inebriar.
Pisco os olhos levando neles
uma imagem

tua - delírio meu.

Respiro fundo
e te guardo
aqui, completa(a)mente
anestesiada,

até a ferida sarar.
Ao longe,
meu mundo prestes a ruir.

Enquanto aqui,
dentro eu sinto
tudo
- a necrosar.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Incontáveis

quinta-feira, dezembro 16, 2010 0
Ilustração: "My Little Secrets" by Audrey Kawasaki


Incontáveis...


...os versos teus
que como meus
proclamo


...as noites em
claro que só
te chamo


...as vezes que
odeio (o) tanto
que te amo

segunda-feira, dezembro 13, 2010

P+2T ...na TV!?!

segunda-feira, dezembro 13, 2010 2
Oi, queridos leitores e, neste caso em especial, principalmente, oi, meninas:

Preciso de uma opinião amiga.

Estou trabalhando num projeto que pode vir a levar um tantinho do P+2T para a TV. (Yupis! Torçam comigo!) Ainda não posso falar muito a respeito, mas quem curte as crônicas que escrevo, voltadas ao universo feminino, certamente curtirá também o novo programa.

Arte by Jairo Tx
Agora, a opinião requisitada - please, participem das enquetes propostas, eu agradeço muito! 

A primeira delas elegerá um nome (é claro que tudo dependerá da aprovação vinda de cima - e não falo do céu). Outras virão e, dessa forma, faremos um programa - anda que pequetitito - que será a cara da mulher REAL, sem os moldes e modelos que a utopia coletiva joga sobre nós. Esse é o eixo!

Ah, e se nenhum dos nomes propostos na enquete te agradou, fique à vontade para sugerir um outro - deixe aqui seu comentário - só, por favor, não tire a MULHER do foco, ok?


Mil beijos e, conto com vocês!

Ju B.

domingo, dezembro 12, 2010

Escritores Convictos: experiências x contradições

domingo, dezembro 12, 2010 0
Certa vez, fui convidada a participar de um sarau. Meu primeiro sarau! Nunca estivera em um como ouvinte e, agora, estrearia no seleto grupo de autores convidados.

– Que maravilha! -pensariam muitos poetas.
– Ai, ai, ai... Que * - pensei eu.

Não que a ideia fosse de todo ruim, mas ninguém se torna escritor à toa – escritores convictos são, por natureza, seres reclusos, avessos a exposições públicas, de corpo presente, de sua figura. Ainda mais quando se trata de um encontro literário. A poesia existe para expressar aquilo que o cotidiano sufoca. É algo que se faz na mais completa intimidade, mantendo autor e leitor preservados do constrangimento que é submeter-se a deflagração de expectativas e reações autênticas. Ninguém escreve e publica algo sabendo que é ruim, mas nunca se pode prever, evitar e tampouco ignorar uma espontânea e reveladora reação alheia.

Ah, o imprevisível... Não há nada mais excitante e, ao menos tempo apavorante, que o imprevisível.  

 Ainda assim, na contramão da essência do poeta, fomentadores, entusiastas e exibicionistas teimam em organizar saraus e mais saraus, mesas redondas e leituras públicas, eventos repletos de poetas de gaveta, que nela guardam o sonho de ser o próximo Drummond, Quintana, Pessoa... Desconhecendo ou simplesmente ignorando o fato de que todos estes tinham em comum, além da escrita, a aversão a tais situações pomposas – o que alguns preferem chamar, educadamente, de timidez.


by Steve Adams


Pois bem, eis que, há pouco algum tempo atrás, fui convidada para um sarau. E, contrariando toda a filosofia barata dos parágrafos anteriores, me agradei da ideia! Seja por vaidade, por curiosidade ou pela fidelidade a uma velha mania de contrariar a mim mesma para, assim, ganhar a liberdade de contrariar os outros com mais autoridade – conhecimento de causa!

Aceitei de imediato, sem pestanejar nem enxergar infinitos empecilhos, como havia feito em oportunidades anteriores. Passei então à tarefa, aparentemente fácil, de escolher três, dentre os zilhões de poemas por mim escritos, para a leitura pública. Fácil? O escambau! Descobri que fui uma poeta muito pior do que julgava minha memória – ler poemas meus antigos é sempre desagradável... Quando já não se leva consigo o mesmo sentimento, já nem se é mais aquele, deveria ser bom... Deveria ser como ler poemas alheios, mas não é. O pior é pensar que o mesmo acontecerá com os poemas de hoje, daqui a meia dúzia de anos... A vontade que tive foi de deletar metade do meu acervo e reescrever a outra metade, mas, uma vez publicados, lidos e propagados, o mal está feito. E agora me pediam para assumir publicamente a autoria do crime e, com a maior cara de tacho, ainda reconstituir a cena – ao vivo – submetendo-me à recriminação, ou duvidosa aprovação, do olhar fruidor. Ai, ai, ai... Que grande *!

by Steve Adams
Decidi assumir os poemas eleitos como se fossem filhos, cujos defeitos também eram meus. Inflei o peito de ar, e um pouco de orgulho, e fui – ao martírio pessoal que é driblar a “timidez” que me faz poeta. 

Por sorte minha ou azar alheio, descobri não ser a única virgem naquela fila de estreia: outros dois poetas que, comigo, ocupariam a mesa do sarau, o fariam também pela primeira vez. Seríamos quatro, mas a terceira nem sequer compareceu: atitude deveras compreensível – lembro de ter agido de forma semelhante, duas ou três vezes, quando virgem ante “àquela outra estreia”, mas isso foi há muito tempo atrás... – voltemos ao sarau. Lembro que, naquele momento, me ocorreu a seguinte dúvida:

– Por que será que sofrer em grupo é sempre mais reconfortante? Tudo é melhor quando acompanhado: o sorriso é mais feliz, o vinho tem mais sabor, o prazer é mais intenso, assim como é a dor. O ser humano é mesmo fiel a sua natureza gregária! Então, pra que diabos serve a timidez, a não ser para privar-nos da experiência coletiva que nos faz humanos?
Foto by Jairo Tx


E lá estava eu, reunida em alegre bando com um punhado de poetas e entusiastas, finalmente humanizada! Levava nas mãos uma pilha de oito ou dez poemas – é sempre prudente manter uma carta na manga esquerda – de onde deveria sortear três, de última hora, para ler e, se possível, interpretar com alguma emoção... Ah, emoção... Guardava tanta que já a sentia pesar, e talvez exatamente por isso, limitei-me a ler, lutando para fazê-lo de forma um pouco melhor do que faria uma menina com a redação de férias, perante a classe da primeira série, afinal, só a experiência otimiza a performance.

E não é que saí de lá ansiosa para repetir a dose? Nos dias que se seguiram, levei comigo aquela sensação vibrante, revivendo cada momento em meu pensar, até que o tempo veio e, pouco a pouco, dissipou aquela sensação embriagante, deixando apenas a ressaca, e uma fotografia estampada num local de destaque em minha estante de memórias. Voltei então a ocupar o recluso e sossegado assento que cabe ao poeta – longe, muito longe das luzes do palco. O meu, fica ao lado de uma janela por onde contemplo a vida e, de forma segura e pretensiosa, reflito sobre ela.

Foto by Ju Blasina

Vez ou outra, um telefone toca, içando-me ao mundo que pulsa do lado de fora. Na última chamada atendida, um convite para a TV - a mais colorida de todas as janelas. Confesso que, num primeiro momento, a ideia de converter aquela literatura que chamo de minha para uma linguagem que me é totalmente estranha, não foi exatamente fascinante... Longe disso! Principalmente relacionando-se ao trabalho que foco sobre o “ser mulher” – quando escrevo, posso fazê-lo de pijamas, cabelo por pentear, sapatos a calçar e, ainda assim, falar de beleza e autoestima em linhas cheias de autoridade! Vantagens da profissão. Mas, fazer isso, literalmente, de corpo e alma, requer uma autenticidade e tanto! E só para contrariar-me novamente eu aceito:

– Obrigada pelo convite! Nos vemos em breve!



*Caro leitor, entenda o * presente neste texto como aquela expressão, nada bonita, que costuma pular de sua boca quando algo, inesperado e assustador, perturba a santidade de sua rotina.

sábado, dezembro 11, 2010

Manuscritos

sábado, dezembro 11, 2010 2
The Writer of Lullabies by Kmye Chan

Ando tão cheia
de contos presos
em páginas soltas
da falta de mais
tempo - para
digitalizar
sentidos
até
agora só
rabiscados



Ando a pôr
       Linhas tortas
             em folhas rotas



Por onde quer
que andes
por onde quer
que busques
por onde quer
que estejas
ao meu redor
tudo se resume
a fragmentos
e manuscritos

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Seremos felizes (?)

quinta-feira, dezembro 09, 2010 0
By Yoshitaka Amano

Às vezes tenho a certeza
tão nítida, crua e fria
de que nós nunca seremos felizes
noutras, pareço (-me) insensata
carregada de dúvidas descabidas
e assim, de repente tudo
parece tão intenso, tão profundo
feito o mais real dos sonhos
um instante ante ao abrir
de olhos

                  em ti

vejo muito
do meu querer materializado
ao teu sentir disfarçado
vejo por entre os dedos
pego só um fragmento (teu)
e o tomo
e o sei (meu)
ou penso que sim
e espero
a certeza

                   impossível

falar por nós
se ainda somos dois
mesmo neste emaranhado
de pernas e planos e panos
sempre seremos dois
a sentir, a pesar, a medir
às vezes me cubro de dúvidas
bestas, secretas, minhas
dúvidas...
mas noutras, tenho essa certeza
                 
                 (que carrego e nego... cego!)

de que (?)
nunca
seremos felizes (?)
mas te vejo
sorrindo
e o tudo, e o resto (?)
pouco importa
te vejo sorrindo
e isso
basta.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Foco, Rotina e uma Vida Fodida

quarta-feira, dezembro 08, 2010 1
Imagem: Divulgação


É duro dizer isso, mas... Sim, a vida precisa seguir uma rotina. Talvez não a vida em si, mas os seres que se dizem - e pretendem assim continuar - vivos, sim. Ainda que tarde, uma ora é preciso definir uma hora: uma hora para dormir-acordar, comer-cagar (ops, polindo o texto: ir ao toillet de merda), uma hora para trabalhar em busca de recompensas; uma para recolher tais recompensas e usufruir. Hora para descansar, ficar só, largado num canto de cuecas e meias, furadas, comendo porcarias processadas e processando ideias não muito melhores – furadas, porcarias. Hora de sair, de fazer a barba, socializar, de camisa decente e sapato apertado, encontrar os amigos, beber, rir, brigar, comer, beber mais um pouco, voltar a sorrir, andar a esmo em busca de uma qualquer, indecente, alguém com quem se possa anestesiar o cérebro em banalidades e, na sorte, afundar o corpo em um pouco de delírio compartilhado, cotidiano, coletivo* - se há um compromisso que se deve cumprir com pontualidade é a hora de trepar (ops, polindo o texto novamente: praticar a porra do sexo) - quem não trepa por algum tempo acaba virando um fodido - sem trocadilhos, juro! É fato. 

(ops, última polida: se o meu "fodido" não lhe agrada, aconselho você, criatura puritana que não deveria ler meus textos, a entender isso por "estrepado/estropiado/arrasado pela realidade", ou então, dispense minhas palavras e procure por algo politicamente correto, uma grande rolha de cortiça para preencher seus vazios - o mundo está cheio de criancinhas mortas de fome, animaizinhos maltratados e vice-versa. Escolha sua rolha. De nada adianta xingar uma folha de papel ou tela de computador. Eu só escrevo, não detenho nenhuma verdade. Não torra!).

É duro dizer isso, sobretudo quando se tem um respeito quase religioso pela caoticidade, mas manter a sanidade requer disciplina. A tendência natural de um indivíduo que larga o foco de mão e se deixa levar pela onda da vida é acabar fodido. Fodido e maluco. E quanto mais maluco, mais fodido. Digo isso por experiência própria! Já estive fodida e maluca, e garanto que não tem nada de romântico nisso.

Certa vez, decidi me rebelar. Joguei tudo para o alto, bem longe. Eu disse TUDO. O meu tudo, claro: trabalho chato, profissão promissora, relacionamento estável – proeminentemente chato – casa da mamãe... Tudo! E por quê? Utopia - o ópio dos visionários. Na época, tudo ao meu redor parecia estar errado. E de certa forma estava – é tudo uma questão de referencial. Não demorou muito para perceber que, na certa, quem estava fora do lugar era eu. Ocupava no mundo um espaço que não me cabia. Sentia-me uma fraude. Era uma sensação realmente horrível - um grito sufocado, uma interrogação sem pergunta, um nó na garganta... como se aquilo que os outros julgavam ser eu, não passasse de um personagem caricato, autômato ou (mal) representado por um ator anônimo, insignificante e desconhecido que agora pretendia se tornar alguém.

Sensação horrorosa aquela. E o que fiz? Dei o grito, fiz a pergunta, cuspi o nó da garganta na cara do mundo e joguei tudo para o alto - meu tudo - incluindo o foco falso que eu, ao menos, tinha, pensando que seria fácil descobrir um novo, um foco autêntico para chamar de meu. Mas, não, não foi. Claro que não. Nunca é. E encontrar um foco deve ser o objetivo primordial de um indivíduo que pretende: 1. Permanecer vivo. 2. Manter a sanidade. 3. Concatenar as ideas. 4. Coordenar as pernas (entenda os últimos dois como objetivos secundários, porém úteis para a realização dos primeiros).

Em meu período sem foco aprendi que, algumas vezes, respirar pode ser uma tarefa aparentemente impossível, mas que uma vez abandonada volta a funcionar instantaneamente, graças ao bendito modo automático. Pena que o mesmo não aconteça com funções mais elaboradas, tais como o pensar com clareza, o levantar da cama e fazer o almoço, o mastigar e engolir, quer seja a refeição, quer sejam as palavras alheias que nem sempre saem de outras bocas, o vestir-se de gente e misturar-se com os outros, e convencer a si mesmo, e por aí vai. A vida inteligente e, sobretudo, inteligível requer muito esforço. Mas um esforço desnorteado não passa de desperdício de energia. Ninguém chega a lugar algum correndo em círculo. É preciso ter um foco, agarra-se a ele e então, correr, ou andar, ou rastejar... arrastar-se até, se preciso for, mas ainda assim, seguir.

Um foco. E uma rotina. Foi essa a receita que encontrei para emergir do mar de monotonia que é o dia a dia sem regras e prosseguir, com muito esforço e um pouco de dignidade, nessa vida tão fodida.


*Referência ao tão amado (por mim) mestre Bukowski.

sábado, dezembro 04, 2010

Da janela

sábado, dezembro 04, 2010 2
Fotografia da série Fenestra, de Ju Blasina


Crônica publicada no Caderno Mulher Interativa/Jornal Agora, de 04-05/dezembro/2010.


Hoje, o sol não veio à minha janela. O céu permaneceu nublado durante todo o dia. Nenhuma nuvem ousou fugir daquele plano. Parecem-me fiéis, as nuvens, talvez reféns, tamanha a obediência. Ele, quem quer que seja o responsável, parece, na maior parte do tempo, saber muito bem o que está fazendo, e o faz com uma autoridade admirável! Já o vento, penso ter ouvido resmungar alguma coisa enquanto passava apressado pela minha janela. Desejei entender a sua língua, mas, sem levar a mesma pressa em mim deixei passar também o desejo.


Árvores balançavam os galhos, agitadas. Algumas folhas, prestes a cair, agarravam-se a pouca vida que ainda tinham, enquanto outras apenas se deixam levar... E voavam longe... Ao sabor do vento. E pouco a pouco eram seguidas por tantas e tantas outras. Invejei-as muito, por um breve momento... Desejei ter em mim a ousadia destemida daquelas folhas. A coragem de se deixar levar pelo ciclo que rege a vida de todas as coisas. A ordem natural das coisas é ser livre! “É fácil, basta soltar o galho”, dizia-me a verdade das folhas. Ou apenas imaginei – penso muito nas coisas, em sua natureza simples, na ausência de pretensões, no segredo que elas guardam em seu caroço. E então, percebo que o meu é feito de um grande ponto de interrogação! Eu disse interrogação? Agora, sim.


E novamente ouvi o resmungo do vento, misturado ao som de uma caixa volante que passava apressada, levando consigo uma porção de gente no caroço, e no rastro, um pouco de terra – fragmentava bruscamente o seu caminho. Na contramão da mesma rua, avistei duas mulheres que, de mãos dadas, andavam – uma, cópia mais jovem da outra. Alheias ao mundo que lhes rodeia, passaram por uma senhora de cabelos brancos presos por grampos – como costumam usar as senhoras, além da saia estampada e dos passos lentos. A última seguiu sozinha, entrando no pátio de uma casa rosa, mas não na casa, só no pátio. E lá, ficou... Olhando a vida que passava em sua rua, aquela mesma rua que era tão minha – via ela a mesma dupla de jovens mulheres, soprava-lhe segredos o mesmo vento... O mesmo céu nublado que ameaçava chover sobre ela, ameaçava chover também sobre mim, as mesmas nuvens que fingiam pairar sobre ela, passavam também sobre mim. Sobre nós, pesava a mesma sombra. Será que ela sentia o mesmo pesar que sentia eu?


Foi então que ri, pela primeira vez naquele sábado tão cinza. Ri da imensidão de minha arrogância – egocentrismo descabido! Se alguma razão morasse em meu pensar, seria eu a sentir-me como ela, e não o contrário, nunca o contrário! Era essa a ordem natural das coisas: as mais jovens, ainda que por diferentes caminhos e velocidades, seguiriam o mesmo destino das mais velhas, assim como antes fizeram as folhas que da mesma árvore pendiam. Assim como um dia também fariam as mulheres que naquela tarde seguiam, sem saber, pela rua que daquela janela era minha...

P+2T: Especial Erótico! Baixe o seu.

Curtiu? Curte lá: P+2T no Facebook

Ou siga por email, inscrevendo o seu aqui:

 
◄Design by Pocket Distributed by Deluxe Templates
Blogger Templates