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segunda-feira, dezembro 27, 2010

Poema de uma vez só

segunda-feira, dezembro 27, 2010 3
Ilustração by Kmye Chan

Tenho pensado muito
em nós
nas horas
mais impróprias
e intermináveis

como são todas as horas

em que

sinto eu
a ti e a mim, mas
de fato, não estamos.

temo por isso.

e te guardo
e escondo e
me envolvo em
versos já sem rimas.
bem melhor

assim...

fico eu
a imaginar dez
mil possibilidades
de caminhar
sem pisar

sobre a cabeça

mãos e pés
corpo e membros
de todos aqueles
que me tem
amor


imagino

a nós
todos
uma vez sós
separadamente
unidos. únicos

o que seríamos?

talvez fragmentos
de mentiras não contadas
horas, minutos e segundos
de solidão.
talvez...

um dia

o tempo nos mostre
tudo: mentira, verdade
tudo. ou mate a
todos nós
de uma só vez


Eu, na certa, morreria sorrindo.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Clichê

quinta-feira, dezembro 23, 2010 1
By Ju Blasina


















Adoro te ver
comprando
pincéis
lápis
estranhos e coisas
de papel
e riscando neles
e sujando todos
os dedos

não foi
por acaso
que casei com um
artista
que odeia
rótulos, assim
como eu
também

adoro o nosso
clichê!

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Bukowski, meu amor

quarta-feira, dezembro 22, 2010 0











Ando

a ler
muito
Bukowski
e paro
pensando nele

também

durmo
lendo Bukowski
acordo lendo Bukowski
rio tanto lendo Bukowski
e choro outro

tanto além, por nós

sozinha
lendo Bukowski
gozo
lendo Bukowski
sempre

lendo Bukowski, lendo

e só
às vezes deito
sobre ele
mas agora
o chamo de


Hank, o safado


então, me diga
se isso
não pode ser
amor
quem sabe

é um vício

trago um
Bukowski sempre
comigo, mas no fundo
é ele quem me tem
enquanto o levo, macio

em minhas mãos.

terça-feira, dezembro 21, 2010

Referencial

terça-feira, dezembro 21, 2010 0
Há um homem
que vive
distante
mas se mantém
sempre aqui, sempre
próximo
a mim
não que o queira, mas
assim o é
Imagem: Reprodução / Artista ?

e eu sinto
como
se o conhecesse
mais que a qualquer
outro homem
apesar dele
me ser
tão estranho

nem sei
se ainda
vive de fato
em algum lugar
além
do meu
pensar

só sei que
nada
sou dele
enquanto muito
ele é meu
ou seria

o contrário
para
o homem
que vive
distante.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Benquista

segunda-feira, dezembro 20, 2010 0
Ilustração by Audrey Kawasaki

Detesto ser aquela pessoa ingênua que, quando questionada "como vai?", responde sempre numa riqueza de detalhes que o interlocutor jamais desejou saber. E que, ao esperar por uma conquista, na ânsia de vencer, faz dos outros seus comparsas, imaginado que a torcida lhes será benéfica, benquista - nunca é. Ela não faz de sua vida um segredo, pois não pode, não quer. Nem saberia como fazê-lo. Há muita solidão nos segredos. Mas não se engane. Não perca seu tempo nutrindo por ela pesares. Não há nada de inocente na ingenuidade descabida, no excesso de dizeres, na carência - de afetos, de prudência, de sentidos. Detesto ser aquela pessoa, mas, ainda assim, o sou. E não há nada que possamos fazer a respeito disso.

sábado, dezembro 18, 2010

(Con) Tradições Natalinas

sábado, dezembro 18, 2010 0
Ilustração by Lorde Lobo
[Publicada no caderno Mulher Interativa - Jornal Agora/RS - Dez/2010]

Todo ano é a mesma coisa. Somos pegos de surpresa pelo aviso encarnado, estampado nas vitrines de todo o lado: outro Natal se aproxima! A princípio, tal aviso nos parece tão sem propósito, inadequado e exageradamente adiantado, como se fossem precisos dois meses de preparação para uma única noite do ano... E seguimos os dias ignorando – ou tentando fazê-lo – todo aquele vermelho e verde que num ano é coberto por prata, noutro por ouro e, sobre eles, as luzes que piscam psicodélicas.

É sempre a mesma riqueza... de detalhes, cores e presentes rodeando uma árvore de faz-de-conta.

Semanas passam, até que somos relembrados do aproximar da data pelo “ho ho ho” de um estranho Noel com ar de empalhado, nada convidativo, na recepção de um estabelecimento qualquer. Seria um péssimo trabalho de taxidermia, diga-se de passagem. Péssimo também é o senso publicitário de quem ali o pôs! A menos, é claro, que a intenção fosse intimidar os transeuntes, fazendo-os correr à loja mais próxima em busca de abrigo e, na passada, alguma bugiganga, só para não perder a viagem, afinal, semanas se passaram e, quando se trata de Natal, é preciso economizar tempo – são tantos os presentes a planejar... E outros tantos que ainda surgirão por necessidade de última hora: um amigo secreto, outro que se aconchega, mais um pequeno grupo que se reaproxima. Por isso, sempre que possível, compre um presente extra, um coringa: neutro, sem destinatário prévio, nem qualquer significado incluso.

Economize tempo, pois dinheiro... é utopia.

Economia doméstica em tempo de Natal é uma ilusão tão grande quanto o próprio dinheiro o é: um montante – nunca tão grande quando se anseia – de folhas de papel com valores estampados, números que dançam apressados, que sobem e descem num saldo bancário, que mudam de lado perante uma vírgula e que, a toda hora, ganham e perdem sinais – negativo para o seu desespero, positivo para a sua alegria.

Questionar o valor que atribuímos às coisas que nos cercam é, quase sempre, um pensamento bem-vindo, mas não no Natal... Natal é tempo de praticar o desapego x o consumismo. “O que importa é o valor simbólico”, mais uma bela utopia! Experimente presentear as pessoas com uma caixa cheia de simbolismo, e nada mais. Poucas entenderiam o recado – provavelmente aquelas de valor inestimável, quem dão razão a utopias e preferem o cartão ao presente. A grande maioria tende a apegar-se ao simbolismo de uma etiqueta repleta de valores numéricos.

Ah, a contradição... Maior e mais celebrada tradição do Natal! 

Expressamos sentimentos por meio de mensagens prontas, celebramos a vida com a morte sobre a mesa, compensamos a ausência de todo um ano sob a forma de um presente... Quando o maior presente que se pode dar a alguém é estar presente, se não sempre, ao menos nos momentos mais importantes. Se não em corpo, em mente, em alma, em coração, ou videoconferência – tempos modernos, soluções práticas. A ausência integral torna-se a cada dia mais indesculpável!

Agora, se você nem sequer sabe quais foram os eventos que marcaram o ano daqueles seres tão especiais que compõe a sua lista de presentes... Bem, sugiro que providencie um embrulho bem bonito para o monte de nada que seu pacote irá representar. Uma fita vermelha e verde é bem adequada. E nem adianta esquecer-se de retirar a etiqueta.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Cisma Noturna

sexta-feira, dezembro 17, 2010 0
Tem gente que tende ao vício. Eu, tendo a obsessões.

A diferença entre o viciado e o obcecado é que o primeiro, mesmo sem querer, precisa, e o segundo, mesmo sem precisar, quer. O obcecado é o sujeito que cisma, teima e persiste, até.... enjoar - se não a si mesmo, a todos aqueles que tem a má sorte de rodeá-lo.  Eu, tenho essa mania de cismar com muitas coisas, constantemente - com coisas novas, sempre novas! Não dou a elas o tempo de envelhecer. E uma vez cismada, o trabalho começa - trabalho árduo, afinal, não tem moleza alguma no fazer uma mesma coisa repetidas e repetidas vezes até quase já não aguentar!

by Marguerite Sauvage

Mas tendo vasta experiência nesta coisa de cismar, não me abalo. Pego um embalo e sigo fazendo, seja o que for: a leitura desenfreada de toda a obra de um determinado autor, a contagem do montante de clips que encontrei perdido no fundo de uma gaveta... O hábito do cafezinho que, há anos, segue meu almoço, da taça de vinho para inspirar, e por aí vai.

    


Não dá para prever
quando uma nova
cisma surgirá
e, consequentemente,
não dá para evitá-la.




Imprevista também é a duração de cada nova mania - algumas, se vão na mesma rapidez com que vieram, já outras... Perdi a conta dos anos que bebo café acompanhado de um naco de chocolate, todos os dias, após o almoço. Talvez, aquilo que começou como apenas mais uma mania, tenha evoluído para vício - tá aí, nunca confirmei esse tipo de transição. É preciso mensurar a dependência do ato.

Existem coisas que se gosta, mas não se tem, não se faz, não se precisa. Outras que se odeia, mas repete, todo o santo dia. Minhas obsessões começam como algo que me agrada ao ponto de ser repetido. E de novo. E outra vez. E mais um pouco. Até que estabeleço algum tipo de meta subentendida dentro de minha cabeça. E a obrigação em satisfazê-la torna-se tamanha que o hábito vira obrigação - mania - e esta, sacrifício. E aí, pronto, a cisma está feita.

Eita coisa desagradável! Mas, cá estou eu, escrevendo antes de dormir. Mais um vez.

Peçonha

By Audrey Kawasaki

Desconfio que o teu amor
seja também o meu
veneno.
Pois me definha.

Teu beijo quente
disfarça a mordida
- saliva ácida

E eu, encantada
pela sonoridade
de teu sibilar
macio,

me (re) aproximo,
completamente esquecida
daquela última dor.

E novamente me sinto

inoculada - tua essência
a domar meus sentidos,
a tomar meu corpo,
a correr em minhas veias.

Não há
antídoto para um veneno
tão bem disfarçado de amor.

Chego até a acreditar,
pouco
antes de sentir o sangue
a ferver, a pele a enrubescer,

a vista, a inebriar.
Pisco os olhos levando neles
uma imagem

tua - delírio meu.

Respiro fundo
e te guardo
aqui, completa(a)mente
anestesiada,

até a ferida sarar.
Ao longe,
meu mundo prestes a ruir.

Enquanto aqui,
dentro eu sinto
tudo
- a necrosar.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Incontáveis

quinta-feira, dezembro 16, 2010 0
Ilustração: "My Little Secrets" by Audrey Kawasaki


Incontáveis...


...os versos teus
que como meus
proclamo


...as noites em
claro que só
te chamo


...as vezes que
odeio (o) tanto
que te amo

segunda-feira, dezembro 13, 2010

P+2T ...na TV!?!

segunda-feira, dezembro 13, 2010 2
Oi, queridos leitores e, neste caso em especial, principalmente, oi, meninas:

Preciso de uma opinião amiga.

Estou trabalhando num projeto que pode vir a levar um tantinho do P+2T para a TV. (Yupis! Torçam comigo!) Ainda não posso falar muito a respeito, mas quem curte as crônicas que escrevo, voltadas ao universo feminino, certamente curtirá também o novo programa.

Arte by Jairo Tx
Agora, a opinião requisitada - please, participem das enquetes propostas, eu agradeço muito! 

A primeira delas elegerá um nome (é claro que tudo dependerá da aprovação vinda de cima - e não falo do céu). Outras virão e, dessa forma, faremos um programa - anda que pequetitito - que será a cara da mulher REAL, sem os moldes e modelos que a utopia coletiva joga sobre nós. Esse é o eixo!

Ah, e se nenhum dos nomes propostos na enquete te agradou, fique à vontade para sugerir um outro - deixe aqui seu comentário - só, por favor, não tire a MULHER do foco, ok?


Mil beijos e, conto com vocês!

Ju B.

domingo, dezembro 12, 2010

Escritores Convictos: experiências x contradições

domingo, dezembro 12, 2010 0
Certa vez, fui convidada a participar de um sarau. Meu primeiro sarau! Nunca estivera em um como ouvinte e, agora, estrearia no seleto grupo de autores convidados.

– Que maravilha! -pensariam muitos poetas.
– Ai, ai, ai... Que * - pensei eu.

Não que a ideia fosse de todo ruim, mas ninguém se torna escritor à toa – escritores convictos são, por natureza, seres reclusos, avessos a exposições públicas, de corpo presente, de sua figura. Ainda mais quando se trata de um encontro literário. A poesia existe para expressar aquilo que o cotidiano sufoca. É algo que se faz na mais completa intimidade, mantendo autor e leitor preservados do constrangimento que é submeter-se a deflagração de expectativas e reações autênticas. Ninguém escreve e publica algo sabendo que é ruim, mas nunca se pode prever, evitar e tampouco ignorar uma espontânea e reveladora reação alheia.

Ah, o imprevisível... Não há nada mais excitante e, ao menos tempo apavorante, que o imprevisível.  

 Ainda assim, na contramão da essência do poeta, fomentadores, entusiastas e exibicionistas teimam em organizar saraus e mais saraus, mesas redondas e leituras públicas, eventos repletos de poetas de gaveta, que nela guardam o sonho de ser o próximo Drummond, Quintana, Pessoa... Desconhecendo ou simplesmente ignorando o fato de que todos estes tinham em comum, além da escrita, a aversão a tais situações pomposas – o que alguns preferem chamar, educadamente, de timidez.


by Steve Adams


Pois bem, eis que, há pouco algum tempo atrás, fui convidada para um sarau. E, contrariando toda a filosofia barata dos parágrafos anteriores, me agradei da ideia! Seja por vaidade, por curiosidade ou pela fidelidade a uma velha mania de contrariar a mim mesma para, assim, ganhar a liberdade de contrariar os outros com mais autoridade – conhecimento de causa!

Aceitei de imediato, sem pestanejar nem enxergar infinitos empecilhos, como havia feito em oportunidades anteriores. Passei então à tarefa, aparentemente fácil, de escolher três, dentre os zilhões de poemas por mim escritos, para a leitura pública. Fácil? O escambau! Descobri que fui uma poeta muito pior do que julgava minha memória – ler poemas meus antigos é sempre desagradável... Quando já não se leva consigo o mesmo sentimento, já nem se é mais aquele, deveria ser bom... Deveria ser como ler poemas alheios, mas não é. O pior é pensar que o mesmo acontecerá com os poemas de hoje, daqui a meia dúzia de anos... A vontade que tive foi de deletar metade do meu acervo e reescrever a outra metade, mas, uma vez publicados, lidos e propagados, o mal está feito. E agora me pediam para assumir publicamente a autoria do crime e, com a maior cara de tacho, ainda reconstituir a cena – ao vivo – submetendo-me à recriminação, ou duvidosa aprovação, do olhar fruidor. Ai, ai, ai... Que grande *!

by Steve Adams
Decidi assumir os poemas eleitos como se fossem filhos, cujos defeitos também eram meus. Inflei o peito de ar, e um pouco de orgulho, e fui – ao martírio pessoal que é driblar a “timidez” que me faz poeta. 

Por sorte minha ou azar alheio, descobri não ser a única virgem naquela fila de estreia: outros dois poetas que, comigo, ocupariam a mesa do sarau, o fariam também pela primeira vez. Seríamos quatro, mas a terceira nem sequer compareceu: atitude deveras compreensível – lembro de ter agido de forma semelhante, duas ou três vezes, quando virgem ante “àquela outra estreia”, mas isso foi há muito tempo atrás... – voltemos ao sarau. Lembro que, naquele momento, me ocorreu a seguinte dúvida:

– Por que será que sofrer em grupo é sempre mais reconfortante? Tudo é melhor quando acompanhado: o sorriso é mais feliz, o vinho tem mais sabor, o prazer é mais intenso, assim como é a dor. O ser humano é mesmo fiel a sua natureza gregária! Então, pra que diabos serve a timidez, a não ser para privar-nos da experiência coletiva que nos faz humanos?
Foto by Jairo Tx


E lá estava eu, reunida em alegre bando com um punhado de poetas e entusiastas, finalmente humanizada! Levava nas mãos uma pilha de oito ou dez poemas – é sempre prudente manter uma carta na manga esquerda – de onde deveria sortear três, de última hora, para ler e, se possível, interpretar com alguma emoção... Ah, emoção... Guardava tanta que já a sentia pesar, e talvez exatamente por isso, limitei-me a ler, lutando para fazê-lo de forma um pouco melhor do que faria uma menina com a redação de férias, perante a classe da primeira série, afinal, só a experiência otimiza a performance.

E não é que saí de lá ansiosa para repetir a dose? Nos dias que se seguiram, levei comigo aquela sensação vibrante, revivendo cada momento em meu pensar, até que o tempo veio e, pouco a pouco, dissipou aquela sensação embriagante, deixando apenas a ressaca, e uma fotografia estampada num local de destaque em minha estante de memórias. Voltei então a ocupar o recluso e sossegado assento que cabe ao poeta – longe, muito longe das luzes do palco. O meu, fica ao lado de uma janela por onde contemplo a vida e, de forma segura e pretensiosa, reflito sobre ela.

Foto by Ju Blasina

Vez ou outra, um telefone toca, içando-me ao mundo que pulsa do lado de fora. Na última chamada atendida, um convite para a TV - a mais colorida de todas as janelas. Confesso que, num primeiro momento, a ideia de converter aquela literatura que chamo de minha para uma linguagem que me é totalmente estranha, não foi exatamente fascinante... Longe disso! Principalmente relacionando-se ao trabalho que foco sobre o “ser mulher” – quando escrevo, posso fazê-lo de pijamas, cabelo por pentear, sapatos a calçar e, ainda assim, falar de beleza e autoestima em linhas cheias de autoridade! Vantagens da profissão. Mas, fazer isso, literalmente, de corpo e alma, requer uma autenticidade e tanto! E só para contrariar-me novamente eu aceito:

– Obrigada pelo convite! Nos vemos em breve!



*Caro leitor, entenda o * presente neste texto como aquela expressão, nada bonita, que costuma pular de sua boca quando algo, inesperado e assustador, perturba a santidade de sua rotina.

sábado, dezembro 11, 2010

Manuscritos

sábado, dezembro 11, 2010 2
The Writer of Lullabies by Kmye Chan

Ando tão cheia
de contos presos
em páginas soltas
da falta de mais
tempo - para
digitalizar
sentidos
até
agora só
rabiscados



Ando a pôr
       Linhas tortas
             em folhas rotas



Por onde quer
que andes
por onde quer
que busques
por onde quer
que estejas
ao meu redor
tudo se resume
a fragmentos
e manuscritos

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Seremos felizes (?)

quinta-feira, dezembro 09, 2010 0
By Yoshitaka Amano

Às vezes tenho a certeza
tão nítida, crua e fria
de que nós nunca seremos felizes
noutras, pareço (-me) insensata
carregada de dúvidas descabidas
e assim, de repente tudo
parece tão intenso, tão profundo
feito o mais real dos sonhos
um instante ante ao abrir
de olhos

                  em ti

vejo muito
do meu querer materializado
ao teu sentir disfarçado
vejo por entre os dedos
pego só um fragmento (teu)
e o tomo
e o sei (meu)
ou penso que sim
e espero
a certeza

                   impossível

falar por nós
se ainda somos dois
mesmo neste emaranhado
de pernas e planos e panos
sempre seremos dois
a sentir, a pesar, a medir
às vezes me cubro de dúvidas
bestas, secretas, minhas
dúvidas...
mas noutras, tenho essa certeza
                 
                 (que carrego e nego... cego!)

de que (?)
nunca
seremos felizes (?)
mas te vejo
sorrindo
e o tudo, e o resto (?)
pouco importa
te vejo sorrindo
e isso
basta.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Foco, Rotina e uma Vida Fodida

quarta-feira, dezembro 08, 2010 1
Imagem: Divulgação


É duro dizer isso, mas... Sim, a vida precisa seguir uma rotina. Talvez não a vida em si, mas os seres que se dizem - e pretendem assim continuar - vivos, sim. Ainda que tarde, uma ora é preciso definir uma hora: uma hora para dormir-acordar, comer-cagar (ops, polindo o texto: ir ao toillet de merda), uma hora para trabalhar em busca de recompensas; uma para recolher tais recompensas e usufruir. Hora para descansar, ficar só, largado num canto de cuecas e meias, furadas, comendo porcarias processadas e processando ideias não muito melhores – furadas, porcarias. Hora de sair, de fazer a barba, socializar, de camisa decente e sapato apertado, encontrar os amigos, beber, rir, brigar, comer, beber mais um pouco, voltar a sorrir, andar a esmo em busca de uma qualquer, indecente, alguém com quem se possa anestesiar o cérebro em banalidades e, na sorte, afundar o corpo em um pouco de delírio compartilhado, cotidiano, coletivo* - se há um compromisso que se deve cumprir com pontualidade é a hora de trepar (ops, polindo o texto novamente: praticar a porra do sexo) - quem não trepa por algum tempo acaba virando um fodido - sem trocadilhos, juro! É fato. 

(ops, última polida: se o meu "fodido" não lhe agrada, aconselho você, criatura puritana que não deveria ler meus textos, a entender isso por "estrepado/estropiado/arrasado pela realidade", ou então, dispense minhas palavras e procure por algo politicamente correto, uma grande rolha de cortiça para preencher seus vazios - o mundo está cheio de criancinhas mortas de fome, animaizinhos maltratados e vice-versa. Escolha sua rolha. De nada adianta xingar uma folha de papel ou tela de computador. Eu só escrevo, não detenho nenhuma verdade. Não torra!).

É duro dizer isso, sobretudo quando se tem um respeito quase religioso pela caoticidade, mas manter a sanidade requer disciplina. A tendência natural de um indivíduo que larga o foco de mão e se deixa levar pela onda da vida é acabar fodido. Fodido e maluco. E quanto mais maluco, mais fodido. Digo isso por experiência própria! Já estive fodida e maluca, e garanto que não tem nada de romântico nisso.

Certa vez, decidi me rebelar. Joguei tudo para o alto, bem longe. Eu disse TUDO. O meu tudo, claro: trabalho chato, profissão promissora, relacionamento estável – proeminentemente chato – casa da mamãe... Tudo! E por quê? Utopia - o ópio dos visionários. Na época, tudo ao meu redor parecia estar errado. E de certa forma estava – é tudo uma questão de referencial. Não demorou muito para perceber que, na certa, quem estava fora do lugar era eu. Ocupava no mundo um espaço que não me cabia. Sentia-me uma fraude. Era uma sensação realmente horrível - um grito sufocado, uma interrogação sem pergunta, um nó na garganta... como se aquilo que os outros julgavam ser eu, não passasse de um personagem caricato, autômato ou (mal) representado por um ator anônimo, insignificante e desconhecido que agora pretendia se tornar alguém.

Sensação horrorosa aquela. E o que fiz? Dei o grito, fiz a pergunta, cuspi o nó da garganta na cara do mundo e joguei tudo para o alto - meu tudo - incluindo o foco falso que eu, ao menos, tinha, pensando que seria fácil descobrir um novo, um foco autêntico para chamar de meu. Mas, não, não foi. Claro que não. Nunca é. E encontrar um foco deve ser o objetivo primordial de um indivíduo que pretende: 1. Permanecer vivo. 2. Manter a sanidade. 3. Concatenar as ideas. 4. Coordenar as pernas (entenda os últimos dois como objetivos secundários, porém úteis para a realização dos primeiros).

Em meu período sem foco aprendi que, algumas vezes, respirar pode ser uma tarefa aparentemente impossível, mas que uma vez abandonada volta a funcionar instantaneamente, graças ao bendito modo automático. Pena que o mesmo não aconteça com funções mais elaboradas, tais como o pensar com clareza, o levantar da cama e fazer o almoço, o mastigar e engolir, quer seja a refeição, quer sejam as palavras alheias que nem sempre saem de outras bocas, o vestir-se de gente e misturar-se com os outros, e convencer a si mesmo, e por aí vai. A vida inteligente e, sobretudo, inteligível requer muito esforço. Mas um esforço desnorteado não passa de desperdício de energia. Ninguém chega a lugar algum correndo em círculo. É preciso ter um foco, agarra-se a ele e então, correr, ou andar, ou rastejar... arrastar-se até, se preciso for, mas ainda assim, seguir.

Um foco. E uma rotina. Foi essa a receita que encontrei para emergir do mar de monotonia que é o dia a dia sem regras e prosseguir, com muito esforço e um pouco de dignidade, nessa vida tão fodida.


*Referência ao tão amado (por mim) mestre Bukowski.

sábado, dezembro 04, 2010

Da janela

sábado, dezembro 04, 2010 2
Fotografia da série Fenestra, de Ju Blasina


Crônica publicada no Caderno Mulher Interativa/Jornal Agora, de 04-05/dezembro/2010.


Hoje, o sol não veio à minha janela. O céu permaneceu nublado durante todo o dia. Nenhuma nuvem ousou fugir daquele plano. Parecem-me fiéis, as nuvens, talvez reféns, tamanha a obediência. Ele, quem quer que seja o responsável, parece, na maior parte do tempo, saber muito bem o que está fazendo, e o faz com uma autoridade admirável! Já o vento, penso ter ouvido resmungar alguma coisa enquanto passava apressado pela minha janela. Desejei entender a sua língua, mas, sem levar a mesma pressa em mim deixei passar também o desejo.


Árvores balançavam os galhos, agitadas. Algumas folhas, prestes a cair, agarravam-se a pouca vida que ainda tinham, enquanto outras apenas se deixam levar... E voavam longe... Ao sabor do vento. E pouco a pouco eram seguidas por tantas e tantas outras. Invejei-as muito, por um breve momento... Desejei ter em mim a ousadia destemida daquelas folhas. A coragem de se deixar levar pelo ciclo que rege a vida de todas as coisas. A ordem natural das coisas é ser livre! “É fácil, basta soltar o galho”, dizia-me a verdade das folhas. Ou apenas imaginei – penso muito nas coisas, em sua natureza simples, na ausência de pretensões, no segredo que elas guardam em seu caroço. E então, percebo que o meu é feito de um grande ponto de interrogação! Eu disse interrogação? Agora, sim.


E novamente ouvi o resmungo do vento, misturado ao som de uma caixa volante que passava apressada, levando consigo uma porção de gente no caroço, e no rastro, um pouco de terra – fragmentava bruscamente o seu caminho. Na contramão da mesma rua, avistei duas mulheres que, de mãos dadas, andavam – uma, cópia mais jovem da outra. Alheias ao mundo que lhes rodeia, passaram por uma senhora de cabelos brancos presos por grampos – como costumam usar as senhoras, além da saia estampada e dos passos lentos. A última seguiu sozinha, entrando no pátio de uma casa rosa, mas não na casa, só no pátio. E lá, ficou... Olhando a vida que passava em sua rua, aquela mesma rua que era tão minha – via ela a mesma dupla de jovens mulheres, soprava-lhe segredos o mesmo vento... O mesmo céu nublado que ameaçava chover sobre ela, ameaçava chover também sobre mim, as mesmas nuvens que fingiam pairar sobre ela, passavam também sobre mim. Sobre nós, pesava a mesma sombra. Será que ela sentia o mesmo pesar que sentia eu?


Foi então que ri, pela primeira vez naquele sábado tão cinza. Ri da imensidão de minha arrogância – egocentrismo descabido! Se alguma razão morasse em meu pensar, seria eu a sentir-me como ela, e não o contrário, nunca o contrário! Era essa a ordem natural das coisas: as mais jovens, ainda que por diferentes caminhos e velocidades, seguiriam o mesmo destino das mais velhas, assim como antes fizeram as folhas que da mesma árvore pendiam. Assim como um dia também fariam as mulheres que naquela tarde seguiam, sem saber, pela rua que daquela janela era minha...

quinta-feira, novembro 25, 2010

Ante ao toque

quinta-feira, novembro 25, 2010 1

Ante ao toque
há dúvida
a suspeita
há indagação

Ante ao toque
há o medo
o anseio
há transpiração

Ante ao toque
há sonhos
a espera
ou desilusão

Ante ao toque
chama - atende
escuta - consente
desliga - contente

Ante ao toque
...trim...
Até que enfim! Será que esse é pra mim?
de uns, o começo, de outros o fim

Ante ao teu toque
quase sempre
eu digo
"sim"

sábado, novembro 20, 2010

Receios

sábado, novembro 20, 2010 2
Temo que eu
Não saiba seguir
Não viva para servir
Não sirva para viver sob
Limitados padrões. Aprender?
Temo que eu não saiba, não queira
Não veja nas moedas os mesmos valores
Teus, o sino já não toco, no presépio já não caibo
Não me adequou aos critérios, independe de quais possam ser
As tuas orações não conheço. E se as conheço ora erro ora esqueço
Temo por já não saber como mudar, como fingir, como aceitar... Como?
Eu bem que poderia insistir. Eu bem que poderia imitar. Eu poderia fugir, voar
Correr, mas temo não saber de quê. Para onde iria eu? Fugir de quem? Voar por quê?
Temo por nada mais saber fazer, além de lamuriar o temer... E escrever, escrever, escrever

sexta-feira, novembro 19, 2010

Quebrando os pratos

sexta-feira, novembro 19, 2010 0
Fotografia: Broken plate by Bert Otten (Lindolfi)

Ilustração do Lorde Lobo, em breve...
Ou, em outras palavras: OPS, esqueci de salvar o arquivo! 
Por enquanto, acesse o Cad. Mulher do Agora online deste sab 20/dom21.


Dois dias antes do combinado e o cardápio estava decidido. Ingredientes cuidadosamente escolhidos, dosados e misturados conforme ordenava a receita, incorporavam uma massa vistosa que, em breve, estaria servida. Tudo parecia correr na mais estranha ordem, até que, no dia seguinte, a prova final revelou um problema: algo parecia estar faltando, ou talvez sobrando, naquela tão controlada perfeição que, abandonando a metáfora, geraria a próxima crônica.

O resultado dessa primeira tentativa, muito ortodoxa e pouco intuitiva, provavelmente agradaria aos paladares fiéis e exigentes que a degustariam logo em seguida. Então, por que contrariar o relógio e o bom senso e, num surto de rebeldia, trocar o confiável por algo novo, sem receita e ainda sem nome, assumindo, assim, os riscos de uma mudança repentina? 

Porque, algumas vezes, é preciso livrar-se das amarras da opinião alheia para satisfazer à própria fome, nem que para isso seja preciso quebrar os pratos! Egoísmo? Não, honestidade.

É árdua a tarefa de viver na busca pela aprovação externa, tentando incessantemente satisfazer a expectativas que não são suas, enquanto as suas são cada vez mais postergadas, ignoradas, sufocadas! Isso sem contar com o fato de que ninguém sabe claramente o que o outro espera – a verdade nem sempre está no que reflete a superfície.

Muitas vezes, o que as pessoas esperam de você* (*indivíduo estranho que deve pertencer a alguma outra categoria, ainda não descrita) é que você compareça – disposto ou não – aos momentos importantes e, de preferência, que esteja pronto para festejar sempre que requisitado, levando estampado no rosto sempre o seu melhor sorriso. 

Retomando a metáfora: esperam que você lhes ofereça uma sobremesa doce o suficiente para tornar qualquer outro sabor irrelevante.

Noutras vezes, tudo o que elas querem é a certeza de encontrar ao menos um de seus ombros, cansado ou não, sempre disponível para que elas possam sobre ele derramar os problemas delas – ainda que para isso os seus tenham que aguardar ao chão indefinidamente. 

Ou seja, querem de você um prato vazio onde elas possam despejar tudo aquilo que lhes é indigesto para que você ou mastigue ou melhor tempere, e só então devolva-lhes o mesmo prato, pré-digerido e, agora, apetitoso.

Mas na maior parte das vezes, o que elas realmente esperam que lhes seja oferecido é um prato simples, morno e insosso, que não exija do paladar dedicação para contemplar, nem sequer compreender – também, não é para menos: de complexo já lhes bastam os próprios dilemas, que tanto lhes enchem a boca e mantém ocupada a língua. E foi visando atender a tal demanda que se criou o protocolo do discurso vazio, tão presente em nosso cotidiano, tendo como seu maior representante a mais popular de todas as perguntas:

– Tudo bem? – cuja resposta, quem sabe? E quem, de fato, quer saber? Uma minoria generosa para a qual ainda vale a pena preparar os mais saborosos pratos.

E o timer, enfim, avisa que este está pronto! Talvez não exiba a melhor aparência, nem seja a mais saborosa das opções, mas certamente traz consigo, ainda que sob uma crosta amarga, a essência franca que tanto caracteriza este gourmet. E, por esta razão, satisfaz imensamente o paladar de quem o serve.

Ruínas de solidão

Family tree by Kmye Chan
Tem dias em que é tamanha
a melancolia que faz de mim insignificante
pequeno grão jogado ao vento, sem chão
sem tempo, sem razão, só... E apenas pó
pairando num tormento que me sopra forte

Ao longe...

E num silencioso alento
ora me escondo
ora me esqueço
e me (re)construo
e me (re)conheço

E lentamente reúno-me àqueles grãos
que também são eu, que também me são
E novamente ergo-me feito em ruínas
de passado, de começo, de tijolos
Não mais que ruínas... de solidão

sábado, novembro 13, 2010

Ampulheta [2]

sábado, novembro 13, 2010 0
Hourglass by Scarlett Royal

Não dato os dias

Não conto as horas

Não meço os passos



Não faço novas malas
nem tolos planos

Não vasculho os velhos baús
na busca por áureos anos




Não conto às estrelas segredos
nem a elas peço desejos

Não espero por promessa
muda dos teus beijos



Não trago mais saudades
pesar, tristeza ou melancolia

Não sinto o pesar da idade
nem levo angústia ou sabedoria


Pois já é tempo
de me ser sem receio
E já, anseio brevemente
na certeza de que
Já, já será
preciso virar novamente


A ampulheta

segunda-feira, novembro 08, 2010

As aparências enganam

segunda-feira, novembro 08, 2010 0
Ilustração: Lorde Lobo // Crônica Publicada no Caderno Mulher Interativa - Jornal Agora - 06/Nov/2010

E novamente, lá estava ele: o espelho...

Com sua fria honestidade, quase ofensiva, lá está ele, impassível, encarando-a, revelando-a, despindo-a e rebatendo cada uma de suas perguntas mudas com aquela verdade cruel, pontual, feito agulha fina que espeta a espinha da vaidade. O espelho não perdoa. Nem o tempo... O tempo passa numa velocidade que ultrapassa a nossa compreensão. Difícil é acompanhar, mas, pronta ou não, a vida segue, ajustando o passo no compasso do tic-tac. É o jeito - não o único, mas o melhor - parar é uma alternativa pouco convidativa!

O tempo passa... A vida passa... E ela? Fica. Perdida num labirinto de sentimentos, tentando ignorar aquele hodômetro de aço que alardeia a todos os presentes qual a distância por ela já percorrida. Ora fingi, ora consegue... Já é craque em disfarçar as marcas, em engolir as mágoas, em fazer de conta que está tudo bem... Convence? A todos, na maioria das vezes, mas a si mesma, nunca. Ela sabe muito bem quem é, por mais que o espelho teime em dizer o contrário. E entre amigas, que nem sempre entendem a profundidade de suas verdades, ela se revela:

"Eu me olho no espelho e já não me encontro lá. Tudo que vejo é um reflexo torto e desfocado. Onde estou? Encolhida, acuada... Estou sufocada sob esta máscara que tempo sobre mim pregou, feito peça de mau gosto."

E então, num momento de súbita rebeldia, ela percebe que precisa emergir! Que quer, pode, e que - custe o que custar - vai moldar aquela estranha máscara para que lhe seja novamente semelhante!

Um olhar superficial pode não entender a crise desta mulher - não se trata de idade, mas, sim, de identidade: um sentimento de inadequação ao corpo que veste, misturado a uma impotência por não poder mudá-lo. Até que, enfim, surge uma oportunidade! Mas junto a ela, uma série de críticas hipócritas e repreensões mesquinhas. Se um bisturi pudesse extrair angústias, quem não se arriscaria?

O fato é que, nossas interações com o mundo são moldadas pela forma como o espelho nos mostra, sim, mas mais ainda pela forma como nos mesmos nos percebemos - e aceitamos, ou não. E, às vezes, tudo que uma mulher precisa para encarar os desafios de frente, é de um bom par de silicones ou de um peeling facial - ou de ambos. Onde está a futilidade disso? Na mudança estética que lhe devolverá o amor próprio ou na coragem de mudar e, de cabeça erguida, encarar o olhar alheio?

É claro que nem sempre a investida gera bons resultados: basta uma falha, na mão do "profissional escultor" ou no bom senso da cliente, para que a catástrofe esteja feita. E há aquelas cuja raiz do problema é ainda mais profunda... Neste caso, de nada adianta moldar a imagem, pois a distorção não está no que o espelho a mostra, mas sim, no olhar que nele procura defeitos.

Vale lembrar ainda que, se o corpo humano fosse feito para ser aberto ao primeiro sinal de dúvida, viria com zíper. Toda intervenção cirúrgica invasiva é uma medida extrema e, portanto, só deve ser usada em situações extremas, onde o benefício valha o risco. 
E, no caso das correções estéticas, tal benefício vai muito além do que aparenta!

quarta-feira, outubro 27, 2010

Mácula

quarta-feira, outubro 27, 2010 0
Já não há em mim pedaço qualquer
resguardado, pequeno resquício
abrigado da marca
dos teus dedos brutos, do provar
de tua língua áspera, do pesar
de teu olhar soturno, da mácula
de tua ofensa ingrata, insensata...
por tantas e tantas vezes fui tua
apenas eu a ofertar-te um bem-querer
que me é só... somente meu                                        Ilustração: Kmye Chan




E agora?
Sinto-me nua, ainda que coberta
sob esta fria casca, ora espessa
ora fina... de um rancor latente
a flor da pele




E agora?
Como fazer para aplacar
esta mancha, esta dor
este pulsante ardor que
ainda outro dia se chama amor




E agora?
Como resgatar-me? se já não há aqui
pedaço qualquer que ainda ouse resistir...
que já não julgue pertencer...
somente e inteiramente... a ti

segunda-feira, outubro 25, 2010

Verdade ou Consequência

segunda-feira, outubro 25, 2010 0
Ilustração de Lorde Lobo









Publicada no Cad. Mulher Interativa - Jornal Agora. Out/2010.










Ainda pequenos, somos treinados por meio de contos e brincadeiras a acreditar que faltar com a verdade sempre acarreta algum ônus – Verdade? Ou consequencia? Desde cedo compreendemos a moral desta história: muitas vezes, pagar uma prenda gera menos constrangimento do que encarar olhares alheios, tão rasos, tão cheios de repreensão despertada pelo contar com a verdade. E assim, pouco a pouco, dia a dia, de pesar em pesar, a inocência dá lugar à flexibilidade dos princípios: o jogo de cintura que tanto nos entretém na vida adulta.

A verdade é que... Nossa sociedade superestima a verdade! 

Nem toda verdade é boa, nem toda mentira é ruim. Nem tudo é tão preto no branco quanto um tabuleiro de damas! Com o passar do tempo, também conhecido como “maturidade”, nossos olhos bem treinados adquirem a habilidade de reconhecer nuances... Sejam elas de cores, olhares, vozes ou comportamentos. E, embora o senso comum diga que só um olhar feminino pode detectar a sutil diferença entre tons de creme, marfim e bege claro, tal habilidade não faz das mulheres detectores vivos de mentira! De forma geral, elas são até mais suscetíveis a ilusão que os indivíduos do gênero oposto, porém, diferente deles, elas conhecem o real valor de uma mentira!

Mentira! Ninguém pode conhecer o real valor de uma mentira. 

Não por ela não ter valor, mas, sim, por ser este um valor subjetivo demais para cair no consenso geral. Pondo os bons costumes antes da ética, uma boa mentira pode ter muito mais serventia que uma verdade do mal – sim, tanto a verdade quanto a mentira podem ter tendências! Toda ação que magoa, que oprime, que prejudica, não é de todo boa, independente do que digam suas intenções!

Nem sempre um bom mentiroso é um mentiroso do bem. É preciso reconhecer o que é mais adequado para cada situação; usar o jogo de cinturas para saber dosar quando a verdade vale, ou não, a pena. E, ao contrário do que diz o jogo infantil cuja finalidade é um tanto duvidosa, muitas vezes na vida adulta uma verdade, ainda que boa, acarreta consequências ainda maiores que uma mentira.

Se você disser a uma criança que seus desenhos são horríveis, que seu traço é torto e que ela não sabe pintar, é bem provável que ela desenvolva algum tipo de alergia ou tendinite oportunista – algo surgirá repentinamente sempre que a tarefa envolver um lápis de cor – o que acabaria com qualquer chance de que a prática a levasse às beiras da perfeição, eternizando tal “verdade” sobre suas habilidades artísticas.

Uma verdade maligna é a ferramenta mais eficaz para a destruição de sonhos!

Além disso, as ações têm o valor que nós atribuímos a elas. E este valor oscila mais que qualquer cotação monetária! Verdade e mentira podem mudar de papéis em questão de segundos. É tudo uma questão de referencial – quando, quem, como e onde. O que é a mais absoluta verdade de um, pode ser a mais supérflua mentira de outro. Ficção e fato não são assim, tão distantes... Basta dar-lhes algum tempo, deixar cair no esquecimento e, pronto: já não se pode discerni-los facilmente.

A história é cheia de fatos enriquecidos por mentes criativas em registros mirabolantes – provavelmente bem mais interessantes do que a verdade crua.

Há quem diga que os melhores mentirosos são aqueles que embalam a mentira em camadas de verdade – inserem pitadas de ficção em meio a dados e fatos. Outros dizem que são aqueles que nelas acreditam, pois, nesse momento, a transformam em verdade. Afinal, onde mora a verdade? No mesmo lugar, em nós, onde a mentira se esconde. É a fé que nós e os outros atribuímos a ela que determinará a sua inclinação.

domingo, outubro 24, 2010

Juncus

domingo, outubro 24, 2010 0
Fotografia de Tomo.Yun
Bateu sobre mim
uma súbita melancolia
forte, turva e fria
feito pequeno tormento

Trazendo este tão triste alento

E eu, a ela cedi...
tal qual folha de junco
que, ao soprar do vento,
à beira da estrada se curva


A mim e aos juncos
não resta nada a fazer
senão o arrebatar
e à estrada, seguir
e ao vento, correr

quinta-feira, outubro 21, 2010

VI Sarau BPP

quinta-feira, outubro 21, 2010 1
Deixarei que uma imagem fale mais do que mil palavras:




Eu [centro], "hoje" [21/10 -  pois ainda não dormi]  durante o VI Sarau da BPP. 

Foto de Jairo Tx





Ok, tentei... Mas não consigo deixar que a imagem fale sozinha - assim como não consegui cumprir a promessa de parecer menos tímida do que de fato estava. Paciência. Ainda assim, foi uma maravilha!

- Mais fotos do evento: AQUI [por Jairo Tx].

- Poemas que apresentei, ou vice-versa [para ler, basta clicar sobre o título]:

1. Ao papel: "...No papel sou poeta que versa a própria pele"

2. O Nada: "Guardo relógios parados / E no silêncio repousa o tic-tac eterno..."

3. Babel -  Blavino #1: "Linguagem // Que nos arrasta / Ora afasta, ora aproxima..."

E agora: O que dizer? Mais uma vez, obrigada à equipe organizadora do evento, por esta oportunidade. E muito obrigada ao público que, tão gentilmente, nos doou seu tempo, sua atenção, seu olhar atento, prestigiou e se deixou prestigiar no evento. Foi maravilhoso! Me sinto plena, completa... Ouso dizer que me sinto até mais poeta!

terça-feira, outubro 19, 2010

O primeiro sarau...

terça-feira, outubro 19, 2010 0
Aproveite a dica e leia um pouco sobre a Pagu -Que mulher!

Pois bem, como mostra o cartaz, em breve meus poemas me tirarão da toca para uma bela socialização cultural em terras vizinhas: um Sarau Poético/Musical em Pelotas!

Agradeço imensamente ao pessoal do Blog/Revista Seja pelo convite, parabenizo desde já a BPP por seus 135 anos e prometo parecer bem menos tímida do que, na certa, estarei! 

Na volta, lhes trago as novas em forma de fotos e de algum poema que há de brotar!
Quem estiver por estas bandas na próxima quinta-feira (21/10), passa lá e me dá um abraço, ok?


Obs.1 ► Coincidência: Noutro dia, admiti que não me recordo de nenhum escritor respeitável que assine seu trabalho com um apelido meigo e simpático, feito "Ju", entonces, decidi que já era hora dela crescer para "Juliana". Logo depois, li a história da Pagu, que mais tarde voltou a ser Patrícia, e a entendi. Só não estou certa quanto a permanência do Ruas, mas... Dessa vez, vai!

Obs.2 ► Obrigado a todos que votaram para o P+2T no TopBlog 2010,  deixando-o entre os 100 melhores de sua categoria. Não passamos da segunda fase, mas... Já fiquei bastante animada por ter chegado nela!


Bom, era isso. Preciso voltar ao trabalho da próxima crônica.  
Ah, e obrigado pelas lidas!  Beijus

domingo, outubro 17, 2010

Karma

domingo, outubro 17, 2010 0
Ilustração: Offrandes #018, por Gerald Brom

Toma
Aqui está. Isto é
Tudo o que pedistes


A caixa é pequena
O peso é leve
O brilho é turvo
O laço é breve


Toma
Coragem e pegue
Teu tudo cabe aqui
Na palma de minha mão


E agora?
Tudo lhe parece pouco?
E agora?
Já nem o queres mais?
E agora?


Toma
Pois foi esse o tudo
Que o mundo reservou pra ti
Ansiavas menos, merecias mais?


Toma-o agora
Deverias ter o pedido previamente
Saiba já: O divinare é ato falho

[poema escrito em agosto de 2009]

sábado, outubro 09, 2010

O bilhete literário

sábado, outubro 09, 2010 0

  


Ilustra.: Lorde Lobo.
Crônica publicada no Cad. Mulher Interativa - J.Agora - Out/2010; baseada no conto de mesmo nome e autora, publicado em outro espaço, em março de 2009.




Na parede, o bilhete, congelado no tempo...

...ela lembra o momento, o exato momento em que o viu – ninguém esquece o começo do fim. Algo assim, não passa em branco, até as memórias tem cor. E na grandiosidade daquele pequeno instante, nem mesmo o bilhete era branco:

Post it amarelo – impossível ignorá-lo! E ela bem que tentou; por cinco minutos ou cinqüenta anos, permaneceu ali, em pé, olhando-o fixamente, sem reação... O amarelo “sinalizador de agonia”’ prendeu toda a sua atenção, mas afinal, essa era a intenção.

Ler ou não ler? Eis a questão. Post it amarelo escrito à mão.

Muita cor pra pouco papel. Muito papel pra poucas palavras. Muitas palavras pra pouco sentido. Muito sentido pra pouca coragem. Muita coragem pra ler – o tal bilhete: “Querida, fui comprar cigarros”




Ela leu uma única vez e as palavras ecoaram em sua cabeça – zunido, tontura, angústia, amargura. Com certeza, o bilhete mais literário que alguém já produziu! Um paradoxo: algo assim, tão banal, causar estranhamento total? Nunca antes existiu.





Lágrimas rolavam de seus olhos secos. Ela permanecia imóvel, exceto pelos movimentos autônomos de seu corpo – o tremer, respirar, o doer, repensar. Dias se passaram até que ela à rua saiu. Conduzida não gentilmente por homens de branco. Foi posta num casaco branco, num carro branco. A mente, também em branco, exceto pelo bilhete amarelo.

...

Já era tarde, muito tarde quando ela enfim falou. Mexeu os lábios, emudecidos pelo tempo – mal lembrava como fazê-lo! A voz, muito fraca. A face, opaca. Mas a memória, não: ela vibrava e emanava cores, formas, cheiros... A memória doía em nuances, relances e tons.

E ali, naquele lugar tão cinza, repleto de gente tão triste, ora branca, ora pálida, ali, ninguém ligava ou recordava o fato. Perdidos em seus próprios pensamentos carregados de pesares, ninguém sequer a ouviu ou bem entendeu o porquê, mas foi ao ver um cigarro aceso, a chama amarela caindo em brasa, que ela murmurou baixinho:

“Mas ele nem fumava...”

segunda-feira, outubro 04, 2010

In.tento

segunda-feira, outubro 04, 2010 0
Finjo a fuga
da ciência minha
para a inocência
- tua. Sou eu assim
arlequim dançante
feito o pingo
que pende e paira
hesitante
sobre o teu sim
Ilustração de Kmye Chan
Sou a interrogação 
que a razão 
vacila

A cadência de um
talvez em arroubos
rouba-nos os dias
e uma brisa fria
que à noite corre
sibilante
feito suor gotejante
pouco a pouco
nos congela, nos excita

És a baforadada 
que na pele 
crepita

E de tudo aquilo
o que mais aflige
e amarga o âmago
de certezas
do meu ser
é este mal
tão teu
que teima
em me quer
tão bem

E nosso intento 
divergente
se reúne finalmente

sábado, outubro 02, 2010

Nuances

sábado, outubro 02, 2010 1







Até
mesmo
a mais clara
verdade, seja
ela coisa ou vida
é, na sombra, cinza








  
Le chat et la chaise* - Fotografia de Ju Blasina
Modelo: Leonardo Antônio, vulgo Léoton
Gato e cadeira são pertencentes à querida
"Família Rosah": meus agradecimentos!
             [*O gato e a cadeira]

quarta-feira, setembro 29, 2010

Contos em Cantos

quarta-feira, setembro 29, 2010 0
Imagem: Federica RedSigns





"Uma vez
tendo a princesa percebido a estranheza da abóbora que supostamente a levaria para casa, desfez-se do mancar que a falta de um sapato causava e partiu, bravamente, a desbravar a noite fria..."


terça-feira, setembro 28, 2010

It's a rainny day

terça-feira, setembro 28, 2010 0







My soul is blue
When the sky is gray
My mind flies... so far away

[It's a rainny day]





[Tradução: Minh'alma é blue* (*triste) - Quando o céu é cinza - Minha mente voa... tão distante //É um dia de chuva]


Ilustração: "Paper Birds" by Kmye Chan

segunda-feira, setembro 27, 2010

Até que o amor os separe...

segunda-feira, setembro 27, 2010 0
...ou una, de uma vez por todas
Publicada no Caderno Mulher Interativa - Jornal Agora
25-26/Setembro - Ilustração de Lorde Lobo

Pessimistas, feministas e masoquistas acreditam que a forma mais fácil de odiar uma pessoa é casar-se com ela – basta deixar que a vida aconteça e assistir até que o amor os separe. É preciso amar para de fato atar sua existência a outra. É preciso amor para aceitar que aquele ser amado já não fica bem neste laço. É preciso muito amor – e coragem – para desatá-lo. E, por fim, é preciso ainda mais amor, para lutar contra as perspectivas, superar as expectativas e permanecer, nos dias de fartura e nos de seca – de juventude, de saúde, de alegria, de paciência... 

E, quando falamos de nuances, é preciso estar na pela de uma mulher para entendê-las. Ou criá-las...

Ela está sentada: pernas entreabertas, vestido estrategicamente bagunçado deixando as coxas à mostra e “acidentalmente” um pouco da calcinha – escolhida a dedo – vermelha. Decote descaradamente aberto expondo os seios já não tão fartos. Bagunça o cabelo, tira os óculos, pega a colher que jaz esquecida sobre o que restou do pote de sorvete. Solta uma risada boba, sem propósito, olhando para a tela da Tv sem fazer a menor idéia do que está passando. Não importa. Desde que o alarme improvisado funcione... Ainda não foi dessa vez! É preciso outra risadinha, agora um pouco mais alta e... ah, funcionou!

O marido, de costas para o sofá em que a esposa se encontra, parece, aos olhos dela, estar trabalhando em “algo inútil no maldito computador”. Ao ouvir o barulho, se vira na direção daquilo que ele julga ser a fonte de tamanha graça: a Tv, não a mulher – que acabara de entrar num estado de desespero silencioso. Sem captar o motivo de tanta risada, ele a olha, de relance... “É a minha deixa”, pensa ela, e lambe a colher de sorvete, lentamente, fingindo-se distraída. Joga uma das pernas sobre o braço do sofá, como lera no manual de sedução de sua revista favorita.

E ele... Não, ele não volta para a “porcaria importantíssima” em que estava trabalhando. Ele para. E, por alguns instantes, olha fixamente para aquele “quadro recém pintado”, como quem acabara de chegar num espetáculo já no meio, tentando entender “o que diabos eu deveria entender?”. Acontece que ela é tão convincente em seu papel de distraída que ele acredita e volta ao trabalho. E ela ri, agora não mais um riso forçado – ela gargalha, sentindo-se a mais patética das criaturas. Ri de si mesma e daquela situação ridícula. Ri dele e da porcaria da colher que nem gosto de sorvete tinha mais! Ri, enquanto algumas lágrimas lhe trazem a boca o gosto das memórias.

Ah, o casamento... O deles sempre foi formidável! Casaram-se apaixonados, ambos realizados em suas carreiras, ainda jovens e bonitos. O convívio era excelente: dividiam tudo, riam de tudo, pareciam saídos de um comercial de margarina. E o sexo... Uau! A química era perfeita! Bastava um toque e a combustão era imediata – mal podiam se olhar! Formavam, sem dúvidas, um casal perfeito! Tinham um casamento invejável! Tinham... E agora, mal podiam se olhar...

Quando se pegou pela primeira vez perdida em tais pensamentos, culpou a sogra, o trabalho, a TPM: “precisamos de férias, é isso!” e as férias vieram, e foram, e vieram de novo, repetidas vezes – as dúvidas e os culpados também: as crianças, os hormônios da menopausa, da andropausa, a casa: “precisamos redecorar” o feng shui salvou o meu casamento – dizia a matéria da revista. E a casa teve um arco-íris de cores, um leque de estilos e uma dúzia de endereços. Fizeram terapia, aulas de dança, meditação, medicação! “Mas tudo bem, isso é absolutamente normal... Nosso casamento é perfeito!” – repetia isso como a um mantra, tentando convencer a si mesma.

Mais tarde, bem mais tarde, ele reclama que ela está com dor de cabeça, novamente – “deve ser de tanto que rir”, pensa ela, um tanto irritada e outro, magoada. Mais cedo, bem mais cedo, ele não era assim... Achava sexy até a cara que ela fazia enquanto escovava os dentes. Fugia dele pela casa, sempre que se arrumava para uma festa. Ela lhe achava tão chato; ele lhe achava tão linda! – ah, como ela se arrependia por não ter aproveitado mais! Como queria ser “chateada” esta noite!

Acontece que ele ainda a achava “tão linda”, só não entendia o porquê dela sempre “parecer” recuar quando ele tentava uma investida mais íntima – “Deve ser impressão minha, só pode! Afinal, ela sempre gostou do meu jeito” – e lá ia ele novamente: na mesma hora de sempre, com a mesma mão no mesmo lugar de sempre (mão esquerda no seio direito). E essa noite, não seria diferente. E ela, respondia com a mesma frase de sempre, a qual ele estranhamente não havia decorado: “vai devagar amor, preciso de mais clima...”

“Clima? Antigamente podia nevar que ela estava sempre no clima” – pensa ele, um tanto irritado, outro, magoado, mas não fala. Só faz uma careta e recolhe a mão – uma careta que, mesmo no escuro, ela consegue perceber e responder, por meio de um longo e profundo suspiro.

Já é madrugada e ela mal dormiu, pensando na ironia de sentir saudades de alguém que está fisicamente tão próximo... Até que, subitamente, o corpo dele, sem sequer acordar, procura o dela... Já é quase de manhã, já faz quase uma semana, um mês, ou talvez dois – quem está contando? – então, ela sorri e se contenta com o que vem e como vem. E lá vem ele com a boa e velha mão esquerda sobre o seio direito, como sempre foi... E veio. E foi. E ela, bem, ela continua acordada, pensando no quanto gosta daquela mesma mão, daquele mesmo homem, daquele mesmo jeito... Como sempre foi.

Quando acorda, o marido já saiu para o trabalho. Ela cheira o travesseiro dele, sorri e se levanta. Vai até o banheiro e toma um longo banho, vistoriando o próprio corpo atrás de algo que mereça levar a culpa, algo que esteja “fora do lugar” e encontra muitos suspeitos, mas nenhuma prova concreta. Encara o espelho, num momento profundo em que vê muito mais do que gostaria... E chora... 

Chora por tudo o que mudou, e pelo que nunca vai mudar, chora porque ele é tudo o que ela mais ama no mundo, chora por ter um “casamento perfeito” e chora, simplesmente porque gosta de se ver chorando ao espelho.

Nota: crônica produzida sobre o conto “O casamento”, escrito pela mesma autora em fevereiro de 2009.

domingo, setembro 19, 2010

Intensidade

domingo, setembro 19, 2010 1
Fotografia: Lu Mattos; Modelo e arte: Ju Blasina








Amar
Até sentir
A carne viva

quinta-feira, setembro 16, 2010

Ani.versar

quinta-feira, setembro 16, 2010 0
Ilustração: Nela Dunato
Não menti
sobre ti
meu lamentar

Não cresci
por guardar
meu soluçar

Não pedi
ao teu passo
um apressar

Não senti
sobre mim
o teu pesar

Não parti
por sentir
teu apertar

Não fugi
pra correndo
te encontrar

Não temi
outra vez
te ver chegar



Por mais que esse poema possa expressar outra coisa, a verdade é que eu adoro fazer aniversário! Não sei se porque ter um dia para chamar de "meu" alimente este ego enorme que todo poeta/escritor tem, ou se isso se deve ao fato da outra alternativa não ser "muito" convidativa... Então, por mais que eles se tornem progressivamente mais pesados, desejo que ainda me venham muitos, mas muitos...
♫...muitos anos de vida...♪
[Pelo "meu" dia, 15/09, celebrado ontem]

sábado, setembro 11, 2010

Pertence ou Não Pertence

sábado, setembro 11, 2010 6
Numa sociedade de valores questionáveis, onde o conceito de posse é supervalorizado enquanto o de privacidade, ignorado, torna-se cada vez mais difícil etiquetar corretamente "o que pertence a quem" – um paradoxo da vida moderna. Primeiro, porque todo mundo parece querer ter o mundo, para rapidamente divulgar tal aquisição, até que outro venha e a tome para si. Segundo, porque a única coisa que alguém possui de fato nesta vida é o próprio mundo:

Aquela pequena bolha de realidade que se forma em torno de um ser, a qual ele colore e preenche ao seu bel prazer, criando aquilo que lhe representa de forma única perante as outras bolhas que flutuam no mesmo espaço.


Publicada no Caderno Mulher Interativa/Jornal Agora
11-12/Setembro - Ilustração de Lorde Lobo


As relações constatemente estabelecidas entre essas bolhas são de intersecção, nunca de posse, independente daquilo que os envolvidos por elas acreditem. Vez ou outra, vidas se cruzam, bolhas se topam e o conjunto de pertences que um indivíduo carrega, passa a compartilhar um mesmo espaço que o conjunto que lhe é alheio, mas que pouco a pouco revela alguma coisa em comum. Em alguns casos, cada vez mais raros, em que o espaço é divido e não somado, a união perdura...

E a bolha mista que dela se gera, expande-se... Progressivamente... Até englobar os seres originais de tal forma que é praticamente impossível distingui-los.

Porém, na maioria das vezes, as pseudorrelações de posse estabelecidas entre os indivíduos são difíceis de acompanhar, tamanha a efemeridade com que se formam e deformam - pessoas pulam incessantemente de bolha em bolha, transformando e sendo transformadas, até voltar a sua própria bolha, contabilizando custos, perdas e ganhos. Sorte daqueles que podem, via internet, contar com a clarividência fornecida pelas oscilantes atualizações de estados (civil, geográfico e emocional) dos perfis virtuais mais próximos - o mesmo recurso que acaba com a privacidade é o que nos polpa de situações mais embaraçosas que um encontro de bolhas desavisadas poderia proporcionar. 

E o jogo do "está ou não está contido" acaba numa porção de conjuntos vazios, ansiosos por preencher suas lacunas de existência com uma série de coisas que nunca serão de fato suas.

As coisas, pelas quais tantos vivem, lutam e morrem, não sabem a quem pertencem. Elas não sabem sequer os nomes que lhe são atribuídos, porque em sua simples existência, as coisas não têm nomes, elas apenas são, sem maiores pretensões. As coisas não têm valores, as pessoas, sim, e os deturpam a todo instante. Quem tem filhos como forma de prevenir-se contra a solidão, carece de alternativas para lidar com a própria individualidade. Quem acredita ser dono de um animal, confunde o significado de "humanidade" com uma falsa caridade, um orgulho tolo que o impede de olhar para outras vidas a partir de um mesmo patamar. 

Sempre que duas bolhas se conectam, ambas se enriquecem, e está riqueza, impossível de mensurar, é a única que conta, a única que prevalece, mesmo depois do estourar das bolhas.

Da mesma forma, aquele que escreve em linhas espirais que giram em torno do próprio umbigo, não precisa de leitores, precisa de um diário. Peguemos como exemplo, esta crônica, que num dado momento foi concebida no mundo das ideias de uma autora, e de lá saiu para um papel, pulando deste para o meio digital, onde passou por diversas outras mentes e mãos com as quais interagiu até, finalmente, chegar às suas e, no entanto, já não pertence a mim, nem a ti. Não pertence à coisa alguma: está livre para apenas "ser" - e é...
...Embora esteja longe, muito longe de ser apenas mais um conjunto vazio.

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