[P+2T] Ebook Erótico #2: Download gratuito!

sábado, dezembro 31, 2011

Contagem regressiva

sábado, dezembro 31, 2011 1
Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo


Chegamos ao fim de mais um ciclo: um período de 365 dias distintos, o tempo distribuído em porções tal qual gavetas de um mesmo armário ao qual chamamos de ano. Chegamos ao fim de mais um ciclo e, consequentemente, o começo de um novo. Nessas horas, as últimas que precedem o inverter da ampulheta, é preciso criar espaço para guardar aquilo que está por vir: limpar gavetas, ainda que metafóricas.

Dizem que papel velho estagna a vida - não só guardar um punhado deles, mas ocupar um que já não faça sentido, também - e quanto a acumular sentimentos inuteis? De vez em quando é preciso fazer uma limpa em todos os espaços onde o passado se esconde. Abrir os armários e neles, caixas lacradas e nelas, envelopes propositalmente esquecidos e nestes, velhas feridas.

De vez em quando, é preciso se desfazer de um tanto de bagagem e do peso que ela acarreta...

...largar tudo aquilo que não já presta, que só faz ocupar espaço para, então, seguir em frente com passos leves e mãos livres para segurar aquilo que realmente importa - ainda que fossem bonitas as caixas, ainda que os envelopes guardassem em si lembranças mumificadas, tal qual um sarcófago de memórias.

Por mais duro que seja o exercício do desapego, de vez em quando é preciso encará-lo, antes que tenhamos que fazê-lo involuntariamente. Com o tempo e a prática que ele traz, acaba-se por descobrir que chorar não derrete, não mata, não achata, mas que sufocar por muito tempo um grito na garganta pode nos emudecer de vez. E que pôr o outro sempre em primeiro lugar acaba por nos tornar o último - e não se pode ser o último na própria vida.

É triste que o endurecer seja parte tão importante do amadurecer, mas, é: ou se aprende a parar de sofrer as dores alheias, dores passadas, dores por nós mesmos alimentadas, e lamentar por derrotas que jamais serão mudadas, ou se é esmagado lentamente de dentro para fora, até que só reste uma casca fina que qualquer sopro leva ao longe. Em um dado momento o endurecer se faz necessário:

É preciso manter raízes fortes presas ao chão e, ainda assim, crescer... ser alto o suficiente para ver - e ter olhos abertos a reconhecer- a beleza do enorme céu que faz de nós tão pequenos.

De vez em quando é preciso desfazer-se e começar tudo de novo. Comecemos logo a contagem regressiva, deixando para trás todos os números até que só reste um - no fim, vale lembrar que somos ímpares - 3, 2, 1:

Feliz Ano Novo!
***

NOTA DA AUTORA: Completo neste ciclo três anos de participação no caderno Mulher - e na chegada do novo, três anos de P+2T! A todos os leitores que me acompanham lá e cá , meu muito, muito obrigada!

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Olhos de vi-ver

quarta-feira, dezembro 28, 2011 0
[autor desconhecido]

Bom que em alguns largos passos e passares de tempo
se possa fazer dos olhos grandes. e das miniaturas
que neles vi-viam [?], gigantes

E ao se ver no tamanho
certo que se deixe de pensar pequenezas

E que no piscar de ambos, diluir-
-se vá aquilo que já pareceu bem maior

E que os olhares não mais se entreguem
a vãos, riscos ou incertezas

Bom que se possa dar às minituras liberdade de partir
e que com elas se deixe livrar de quaisquer grande pesar
pequeno cisco ou criatura - quer seja de agora ou de antes.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Vida em movimento

segunda-feira, dezembro 26, 2011 0
[ou "Desejos de uma vida ou duas"]
Autorretrato, Ju B.



Quando é chegado um dado momento]

às vezes percebo um movimento
leve que vem de dentro
do meu ser

e dessa vida meio minha
que carrego bem
sozinha

penso que, por ora, ela é tudo
que me basta e me arrasta
mas a hora passa

e vejo meu desejo crescer assim
como o abaular do ventre
e o abastar do colo

e neles existe mais espaço
pessoas, há até mesmo
um 'eu'

que deseja ver além dos próprios pés
e andar com eles levando outros
pequenos por cima

ao menos até que eles cresçam
e se tornem ainda maiores
que os meus

passos, lado a lado seguiremos sempre
ou talvez eu lhe siga um pouco mais
à distância

para nunca, jamais impedir-lhe o ir
nem ter que dele implorar
um vir

entre meus quereres lhe guardarei bem
perto, ainda que um dia fora
de mim

os medos, guardo também, sob a casca
que preciso para ser forte
como uma mãe [?]

certa de que, por maior que possa o amor ser
há um tempo que passa e não me cabe
a ele conter

a velha que morre enfim, a nova que trago em mim
há pouco e que só faz [tão bem] crescer
toda ela, toda eu

toda a vida quer nascer.

Entre sinos e grilhões natalinos

Conto escrito para a REVISTA SAMIZDAT
Ilustração de Jairo Tx
Tomo meu remédio com uma dose de martini. Não que eu precise do primeiro ou goste do segundo, mas eram os favoritos dela. Não lembro de a ver fazendo desse jeito, mas esse é o meu jeito de dizer "I miss you, hun", como ela mesma diria.

"Martini combina com o meu vestido e com a decoração. Deveria ser eleita oficialmente a bebida do Natal! É por isso que eu adoro o Natal! Você não adora, hun?"


"Eu adoro você!"

As palavras soam de algum lugar entre o meu pensar e o ressonar dos sinos. Eles tocam ao longe... Muito longe para que eu possa vê-los, mas com força suficiente para alcançar os meus ouvidos. Ainda que eu não queira. Seu som me interpela e me ignora. Não passo de um obstáculo às ondas que passam.

Faz tempo que ela se foi. Tempo o suficiente para que as roupas com as quais a vesti já estejam fora de estação, mas não tempo o suficiente para que tenham sumido, consumidas pela terra, pelo tempo ou pelos vermes do esquecimento.

"Natal é tempo de recordar".

E quando será tempo de esquecer? Tempo nenhum é suficientemente longo para apagar certas memórias. Memórias de amor, de ódio, de dor. Sobretudo aquelas do que nem chegou a acontecer. Memórias forjadas  por planos, por desejos, pela utopia de um futuro jamais vivido. O tempo não as leva de fato, ele apenas as fragmenta em pedaços cada vez menores e os mistura, feito um mosaico.

Talvez um dia eu não mais saiba identificar nossos "quandos, ondes e porquês", talvez agora eu já não saiba. Mas ainda tenho o nosso mosaico e ele é tudo o que me resta.

"Como você pode me abandonar? Não era esse o plano!" 

Não falo sozinho, falo com um retrato, antigo e torto, pendurado na parede. Sou um clichê: a morte do espírito natalino. Ela certamente riria ao me ver num estado tão deplorável. Riria e depois abriria as cortinas e começaria a falar com seriedade, naquele tom que só as mulheres tem e que as faz parecer inquestionáveis  um tom que torna o mais duro dos dizeres doce e ao menos tempo irrefutável. Eu estaria perdido.

Pensando bem, estou perdido. Quase a vejo no balançar das cortinas. Ignoro o vento. Imagino as palavras que seriam ditas, mas não com força o suficiente para obedecê-las. Estou tão perdido quanto se pode estar. Como alguém que perde qualquer direção. Alguém que perde a vontade de seguir. Alguém que perde a si mesmo. Um corpo sem reflexo. Uma sombra sem corpo. Onde estou? Estou parado. Preso pelo medo de seguir por um caminho que não sei. Não quero seguir. Não quero saber.  Tudo o que quero é voltar a um tempo e lugar que nem sequer existem.

"Como você pode seguir sem mim?"

Tomo meu remédio com um copo de veneno. Nada tem efeito. Nada pode matar um homem morto. Nem trazê-lo de volta à vida  ainda se estivéssemos na Páscoa, mas é Natal. Outro maldito e estúpido Natal! Com todo o seu vermelho e verde, com seus estúpidos anjos e sinos.

A roupa com que me vestiram também está fora da estação. Mas não sinto frio nem calor. Não sinto fome, sono ou qualquer outra necessidade além dessa saudade de ser vivo. A saudade é uma necessidade não catalogada. Só estou aqui pelo desejo inútil de estar vivo. Pelo medo jamais ouvir novamente o badalar dos sinos, por mais estúpido que seja.

"Ao contrário de você!"

Já faz tanto tempo... Quanto tempo faz? E, afinal:

"onde diabos está você?"

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Apelo seco

segunda-feira, dezembro 19, 2011 0
by  L a u r a  L a i n e

Sufoco
em plenos
ar e pulmões
e no primeiro que dos segundos sai
ainda quente, quase úmido
como são [ou costumavam ser]
os corpos: entregues, perdidos
entre a volúpia e a alucinação
aspiradas em um momento recém-
comido, da vida
trazida, tragada em baforadas
ora circulares
ora disformes
até que de todo seque
a garganta e já não haja saliva
para trocar, para cuspir
para manter abertos os canais
por onde o ar precisa
correr para encontrar e preencher
a bolha que jaz

já quase murcha
no meio do ser.
sufoco
não por falta de meios
nem de ares que me impeçam
o colabar da bolha
mas por não mais ter
saliva
que me permita dizer
ao ar e a tudo aquilo
que me é precioso:
"venha e
faz-me nova-
mente cheia
do que quer
que seja
que preciso
para o dia-a-dia
inspirar e assim
re.viver"

domingo, dezembro 18, 2011

A fraude

domingo, dezembro 18, 2011 1
No
momento
em que algo
tão de perto se vê
que a sapiência se faz
crescer para além daquilo
que se queria do outro saber
caem dele a máscara e a fantasia
desfeitas independente da resistência
daquilo de que eram feitas e o que resta é
uma verdade crua, um corpo nu, a carne aberta
o caroço exposto ao constrangimento do próprio ser
e dos tantos olhos alheios que friamente lhe penetram
tal qual pequenos cacos que, enfim, lhe percebem de todo
a essência: da fraude que mora em toda e qualquer existência
[como chegar ao topo de uma escada para descobrir-se o fim e o nada mais]

Um mundo em Jaguarão - Parte 2

No final do sábado, 10, fizemos uma segunda rodada de Poesia no Bar - dessa vez, com a participação de premiados poetas uruguaios: Elbio Chítaro [Palavras rotas], Gerardo Ciancio [Cieno] e Andrés Echevarría [La sombra de las horas].

Conduzindo 'os trabalhos' da noite, estava o grande Jorge Passos - fica aqui o registro de uma de suas leituras - "Lixão":



Bom, poesia no bar, quando no bar mesmo, tem que ter, entre outras coisas, mto barulho! Assista - e aumente o som para também ouvir - esta Ju Blasina aqui recitando o poema "Saber-se":



Muito obrigada a todos com quem por lá tive o prazer de interagir! 

Fico muito feliz que tenha sido este o primeiro evento cultural em que levei meu rebento, ainda na barriga! Voltei com a mala e a cabeça cheias: de livros, de memórias, de novas coisas adquiridas - todas excelentes!

Posso dizer que voltei renovada! 
Foto by Ju B.

P.S.: E parabéns ao autor fronteriço Aldyr Garcia Schlee, patrono da 3ª Feira Binacional do Livro de Jaguarão, que acaba de receber mais um Açorianos, na categoria Narrativa Longa com sua mais recente obra "Don Frutos".

Beijos mil
JuB.

sábado, dezembro 17, 2011

Um mundo em Jaguarão - Parte 1

sábado, dezembro 17, 2011 0
O último final de semana da 3ª Feira Binacional do Livro de Jaguarão foi simplesmente SENSACIONAL - como desconfio que tenha sido todo o evento!

Na sexta [dia 09] à noite, o lindíssimo Bistrô Almazen recebeu um bando de poetas de diversas partes deste pampa e ainda o português Paulo José Miranda, num encontro que entrou para a história da cidade e daqueles que por lá tiveram a felicidade de estar! Eis algumas fotos de um Poesia no Bar especialíssimo:

Daniel Moreira, Valder Valeirão, Alvaro Barcelos (todos 'idos' de Pelotas) e eu, no Menu ;]
Eis agora um pouco do que o "Muito mais" no menu da noite se referia:
[Carlos Di Jaguarão] E as leituras começam!
Jorge Passos - Jaguarão
Carlos José de Azevedo Machado - Jaguarão

Poeta Português, Paulo José Miranda
Pedro Gonzaga - de Porto Alegre
Martim César - Jaguarão

O público...
...atento!
"Quixote e seu cavalo, com lança e armadura..." - O Sonho de Cervantes, por Caminhos de Si [acesse e conheça mais]
Final da performance do Caminhos de Si e do desenho de Jairo Tx
------------------------------------------
E no sábado à tarde, tivemos um bate papo maravilhoso com a participação das uruguaias Marisa Bentancur e Virginia Lucca - uns amores! Também estavam presentes na casa de Cultura de Jaguarão: Daniel Moreira e Valder Valeirão [de Pelotas], Jairo Tx e eu, Ju Blasina [por Rio Grande], Jorge Passos e Maria Fernanda, de Jaguarão. Falamos sobre teatro e literatura e fomento às artes e as [duvidosas] iniciativas governamentais de incentivo à cultura e a necessidade de se alimentar o [bom] gosto 'pela coisa toda' e o papel da rede [web, internet] dentro dessa grande rede e do nosso, que dela fizemos uso como leitores e autores, em meio a isso tudo: das responsabilidades da autopublicação, da atenção pelo onde, como e o que se posta.
Foi uma tarde daquelas de se sair tapando os ouvidos: para que tanta coisa boa recém-adquirida não caísse acidentalmente pelos buracos da cabeça!

E assistimos ainda a alguns vídeos produzidos por Jorge Passos e o povo da Confraria dos Poetas de Jaguarão [◄ clique e visite o blog] - bateu até uma vontade de me mudar para lá só para fazer parte da trupe! Como diria um deles, ou todos, em uníssono:
"O poeta, enfim, é um caranguejo que se libertou do balde!"
- Ode à Confraria, de Martim César

 ...continua...

À mulher do banheiro da rodoviária

Minutinho de atenção, por favor: A crônica "Conversas Transversais", publicada no caderno Mulher Interativa [Jornal Agora] da semana passada, foi erroneamente atribuída a mim, quando na verdade a autoria é de Silvia Oliveira. Estive fora na ocasião e não a li. Só fiquei sabendo disso ontem, ao ouvir meu médico comentar sobre algo que eu supostamente teria escrito. // Lembrando que colaboro com o caderno quinzenalmente, logo, neste sábado/domingo, sim, o espaço é meu. Grata!

Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo


Quinze minutos - esse era o tempo de que dispunha para sair de um ônibus, comprar as passagens e seguir, em outro, o caminho de volta para casa. Seria um tempo razoável, não estivesse eu grávida, isto é, cheia de urgências: de um banheiro, antes de tudo!

A necessidade de ir ao banheiro em todo e qualquer lugar é um tremendo desafio a alguém que nunca antes usaria outro, senão o seu [e por conta disso colecionou diversos problemas de saúde ao longo dos anos]. E lá fui eu, viver perigosamente, em busca do banheiro da rodoviária. Argh!


Tudo é suspeito em banheiros públicos. Nem mesmo as mulheres se parecem com as das ruas.

Ou por serem muitas as que evitam este tipo de lugar, exceto quando a necessidade é extrema (eis o meu caso) ou por se mostrarem diferentes quando flagradas em tal lugar - constrangidas, disfarçadas, apressadas, brigando por um pedaço quer seja de espelho quer seja de papel, na ânsia por um assento livre - a irônica privacidade da privada pública.

Mal abri a porta do feminino – com o cotovelo, minimizando a contaminação por contato – e me deparei com ela: a mulher que pede dinheiro no banheiro, figura clássica! Confesso que geralmente a ignoro – mexer em bolsa num lugar desses não é uma atitude muito esperta; confiar em mulheres de banheiro, menos ainda, afinal, são elas que escrevem as barbaridades ortográficas e pornográficas nas portas dos sanitários (numa assustadora coincidência, dias antes, naquele mesmo local, me deparei com uma em que dizia “te amo, Juliana”, mensagem acompanhada por um desenho nada romântico, embora parte dele até lembrasse um coração, se visto ao contrário).

Pois bem, lá estava a mulher do banheiro, repetindo incessantemente a mesma frase em que pedia um real para cada uma que parava em frente ao espelho (ou seja, a todas). Mas quando me viu, lutando pelo meu pedaço de papel-lixa, a frase foi outra: "moça, a senhora tá grávida [sic]?", respondi que sim, com a cabeça, "ah, eu tive um menino, faz seis dia [sic]". Eu, que detesto conversar com estranhos, ainda mais em banheiros, ensaiava dizer algo genérico, do tipo "que bom!", quando fui interrompida por ela, "oh, a minha cesárea" – dizia, enquanto baixava o cós da calça o suficiente para que eu visse a prova de sua verdade sob a forma de um corte ainda vermelho e mal-coberto por pontos que me causaram um arrepio indisfarçável. 

Estranhei por ela ter seguido com seu apelo às outras mulheres, que a ignoravam, e não a mim. Também, já não era preciso. Enquanto eu mexia na bolsa em busca de uns trocados no pouco que havia restado do que levara à viagem de compras para o meu bebê – as notas davam lugar agora a notas fiscais de um carrinho importado e vários produtos de nomes famosos – ouvi a mulher dizendo que precisava juntar seis reais, para comer, viajar ou talvez ambos, não entendi ao certo, estava atônita pela visão daquela cesárea ainda fresca. Em nenhum momento a ouvi falar o nome do seu bebê recém-nascido. Juntei algumas notas e entreguei a ela. "Ah, moça, muito obrigada, dá e sobra!"

Enquanto eu ia, finalmente, fazer aquilo que me levara até ali, ela seguia falando "já sabe o que é?" – “ainda preciso confirmar, mas acredito que seja menino”, respondi eu, sorrindo meio forçadamente e entrando muito apressadamente no cubículo da privada, sem tocar em nada. Ela seguia falando do lado de fora. Sua voz era suave e falava muito pausadamente, quase num sussurro, como quem se não quer atrapalhar. "Tudo de bom pra senhora. Viu, moça? que tenha uma boa hora. Saúde pro seu bebê [sic]" - ela dizia enquanto sua voz ia ficando distante, até que já não mais pudesse ouvi-la.

Segui apressadamente as minhas funções, para cá e para lá, naquela rodoviária tão podre quanto todo o resto, e não mais vi nem ouvi a tal mulher do banheiro – devia a ter deixado para trás, junto a ele, mas algo meu ficou perdido naquele encontro. E não me refiro à meia dúzia de trocados que para ambas tanto significaram, falo de algo que não foi dado, nem pedido, da eterna dúvida do não dito.

Ainda penso nela, em seu bebê sem nome nascido perto do Natal, em seu destino ou tragédia – sem um rei sequer que lhe presenteasse com qualquer bobagem. 


Será que lhe aguardavam numa manjedoura, numa incubadora ou em outra caixa qualquer? Talvez devesse eu ter perguntado mais que respondido, talvez não: perguntas só enriqueceriam o meu saber e nada além. E vai que dele ela só guardasse consigo a cesárea, a dor e a necessidade daqueles seis reais, sabe-se lá para quê. Quando nada se pode fazer, de que vale mais se dizer? De que vale? 

"De nada, mulher do banheiro da rodoviária", de nada.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Ferida

quinta-feira, dezembro 15, 2011 1
By Steven Kenny
Às vezes
eu sinto
[muito]
que nunca
vou deixar a dor
que te fiz [?]
passar

E isso
dói ainda
mais
por só doer
e não sangrar e não
matar e não fazer maior
ferida que se possa ver

Memórias são
como vermes
como dores
como algo que só nos faz
corroer num maldito desejo
de sentir, de saber e de
mais sofrer por [mal] vi-ver


Deixai cair toda a pedra ao chão
até que um dia, como tudo o mais
se torne apenas pó.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Alheio sorrir

quarta-feira, dezembro 14, 2011 0
Escrito logo após o encerramento do
[m a r a v i l h o s o] Poesia no Bar de Jaguarão [09/12/11]

Fotoarte by Ju B. [modelo desconhecida]


As pessoas sorriem
quando fazem
as coisas delas
são maiores
as pessoas sorrindo
enquanto eu
seria-
-mente
observo as pessoas
ao sorrir
isso as torna tão
[in] diferentes
isso se torna quase
meu. tanto que
no silêncio
que se faz [?]
lamento
ao ver o partir
daquele alheio sorrir.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Inf.forma.ativo

quarta-feira, dezembro 07, 2011 2
News, good news!
Oi, oi, ois! Hj, não trago um novo post literário, mas trago links para alguns:

A REVISTA SAMIZDAT está de volta! Yupis!!! Como acontecia antigamente, dia 07 é o meu dia de postagens, ou seja, hoje! E para comemorar "a volta dos que não foram", postei um conto inédito (que só trarei para cá na semana do Natal), com direito a ilustração especial do meu querido Jairo Tx. Confiram:

"Entre sinos e grilhões natalinos"
Um conto macabro. By Ju B ~ Revista Samizdat

Outra boa nova é a estreia de meu novo projeto [porque essa coisa de ser mãe de primeira viagem, curiosa e perfeccionista me mete em cada uma... ao menos assim, faço tanta pesquisa valer para mais alguém]:
Arte by Jairo Tx
Novo blog: andoGESTando [clique e acesse] 
Gerando, gerindo, gestando... Eu, ando!


Motivo para comemorar nesta semana também é a minha na participação num evento literário que cruza a fronteira dos pampas. Neste 'findi', levo o P+2T à:
3ª Feira Binacional do Livro de Jaguarão
[na volta, trago fotos, relatos e regalos de Rio Branco] 


Assim sendo, clique, leia e divirta-se - eu, certamente, o farei ;]

Beijus
Ju B.

sábado, dezembro 03, 2011

Enfeites & Embrulhos

sábado, dezembro 03, 2011 0
Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo
Mais um último mês se inicia. E com ele as mesmas funções de sempre ganham novos ares de urgência e seriedade. O velho "o que comprar para quem" está de volta, somando novos "quens" e gastos – de ideias, de tempo, de finanças, de paciência – a "tentativa obrigatória" de alimentar um guloso espírito natalino que, a cada ano, parece mais fraco – não por falta de quem lhe supra as vontades, mas de substância nelas.

Todos os anos, ele pode ser visto a vagar pelas ruas cheias e conversas vazias. Ele aparece tal qual um obeso Papai Noel sem fôlego para carregar o próprio saco – cada um deveria ser capaz de carregar o próprio fardo, e sem o auxílio de animais escravizados em trenós voadores! O espírito natalino é muito alimentado, porém, mal-nutrido.

E se pudéssemos dar e pedir coisas que não se pode vender ou comprar? Tudo seria diferente – não mais fácil ou barato, mas mais saudável. Se os pedidos fossem feitos de sonhos, de sentimentos, de crenças, o velho que representa esta época do ano teria outra aparência – talvez sem o famoso saco ou a barba branca... Talvez nem fosse velho ou nem mais existisse.

As lojas estariam vazias e as pessoas, cheias, no bom sentido,
e não o contrário.

Quando fazemos listas, corremos às lojas, esvaziamos os bolsos e lotamos nossa árvore falsa com enfeites e embrulhos toscos, muitas vezes esquecemos que tão valoroso quanto o conteúdo é o pacote que o guarda. É ele quem o apresenta, quem o introduz e causa a tão importante primeira impressão – um pacote que guarda um presente é, na verdade, uma promessa, um sonho, uma esperança, um futuro: o tempo que ainda não veio, que está eternamente prestes a ser, mas que nunca de fato acontece, pois aquilo que acontece chamamos de "presente". 

Dessa forma, o futuro é o embrulho de um presente, e o presente, por sua vez, um embrulho rompido, um futuro irrompido! Pouco antes de nascer, somos um futuro guardado no ventre de outra vida.  

E na barriga de cada mulher que espera está o embrulho de um novo presente que, antes, precisa romper a barreira que o separa de seu futuro, para, enfim, ser 
– e poderia estar aí uma bela explicação para todo o simbolismo natalino, mas, infelizmente, não está.

Bom seria se pudéssemos cobrir os pés da árvore sem raízes que nos planta o Natal em casa com pequenas caixas de futuros: aqueles que sonhamos àqueles que amamos. E que eles, ao abrir os seus, assim como nós, ao abrirmos os nossos, recebessem o melhor e mais real de todos os presentes - o de ser feliz hoje e em tantos novos “hojes” o quanto permitissem os pacotes recebidos – e merecidos!

"Que cada dia seja uma riqueza vinda num belo embrulho a se romper" 
- eis o que diria sobre os meus pacotes - sob um largo e vermelho laço de fita.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Verdade universal

sexta-feira, dezembro 02, 2011 0
"Tire o seu sorriso do caminho
que eu quero passar [quero passar]
com a minha dor"
- Nelson do Cavaquinho


Poeta mesmo
sem fé
é
capaz de
ajoelhar-se
e rezar diante
da grandeza
de um pequeno
verso
ainda mais
triste
que o seu
pesar
desde que
traga em si
uma verdade
universal
sobre a dor
sobre o amor
sobre tudo
o que se pode
cantar
e num encanto
afastar
todo o mal.


"Silêncio, por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito"

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Sê voz aos teus ouvidos

quinta-feira, dezembro 01, 2011 1
Autorretrato por JuB.
Sou sempre tão mal
interpretada por ter
grandes a ânsia
e as verdades a saltar.

sê em torno de ti

há tripas de todo o tipo
e se nem tu nem elas
podem me ouvir
por que tanto dizer?

sê tudo o que importa

guardo agora na barriga
embora me negue
a conversar com um umbigo
surdo, só para aparentar

sê melhor que pudera antes ser.

é a espera a mais sábia
das decisões.
guardo na boca
as mais belas:

palavras a contar
e versos a cantar
aos teus ouvidos.
                                                                e assim, enfim, a voz

                                                                e tudo o mais em mim terá sentido.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Eventos: 3° Feira Binacional do Livro de Jaguarão

quarta-feira, novembro 23, 2011 1
Aldyr Garcia Schlee - patrono desta edição do evento
De 2 a 11 de dezembro acontece a terceira edição da Feira Binacional do Livro de Jaguarão. Durante poucos dias, a fronteira entre Brasil e Uruguai se tornará imaginária. Dois povos, duas culturas que interagem até que não mais exista distinção, essa é a essência do evento que, além da comercialização dos livros, oferece espaço de fruição das mais diversas formas e expressões artísticas.

A Feira é uma realização da Prefeitura Municipal de Jaguarão, através da Secretaria de Cultura e Turismo. Na programação estão previstas sessões de autógrafo, encontro literário binacional, poesia no bar, contação de histórias, bate-papo literário, shows e atrações artísticas. Confira e participe!


Eis quando o P+2T, através de sua autora, se insere na programação:

Noite 09/12 (sexta) 22h Poesia no Bar, no Bistrô Almazen com entrada gratuita. Presença de poetas uruguaios e brasileiros;

Dia 10/12 (sábado) 16h30 Movimentos literários alternativos e independentes e a internet como ferramenta [mesa redonda]

Por Uruguai: Gabriel Sosa e Virginia Lucca

Conheça o trabalho de alguns dos autores participantes clicando sobre os nomes em destaque.

Confira a programação literária completa da 3° Feira Binacional do Livro, clicando aqui.

sábado, novembro 19, 2011

Mulher de peito

sábado, novembro 19, 2011 0
Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo


Super peitos são superestimados. Digo isso com conhecimento de causa, uma vez que passei naturalmente de despeitada orgulhosa à peituda vaidosa - mais naturalmente impossível: bendita progesterona que não me deixa mentir [coisas da gravidez].

É comum que se associe peito a coragem, como se fosse preciso o ter em abundância, ainda que metafórica, para "encarar" o mundo [encarar o mundo com os peitos, i.e., "peitar", que também é sinônimo de subornar, procurar corromper... com os peitos - armas letais]. Por outro lado, não o ter vistoso é sinônimo de recalcaque, inveja, ressentimento - despeito.

Como ex-despeitada, posso garantir: nem todas os desejam maiores. A relação de uma mulher com os seus seios é uma relação de identidade - algumas, sim, sentem como se se eles não combinassem - seja entre si ou com o todo que os rodeia - e, por isso, desejam uma cirurgia mais que tudo na vida, mas há também as que se sentem na mais perfeita harmonia com aquilo que levam levemente em seus bojos tamanho P. O mesmo ocorre com as portadoras do extra-G: nem todas concordam que maior é melhor (aliás, nem todos, talvez só o estereótipo masculino, mas não se pode falar por uma natureza tão oposta).

Cirurgias de redução mamárias não são tão comuns como as de prótese, mas não são raras. A inserção de prótese de mamas é a mais popular intervenção cirúrgica do Brasil  - país que ocupa o segundo lugar no ranking mundial de siliconadas - só perde para os EUA, onde as meninas ganham peitos e  rinoplastia como presente de boas-vindas à maturidade: 

uma embalagem adequada ao mundo plástico que tentará as envolver a todo custo!

Mas toda mudança, estética ou não, traz consigo pormenores que não são anunciados na propaganda convidativa. Como a sobrecarga que grandes peitos representam a costas despreparadas ou o baque no orçamento que o aumento de dois ou três números no manequim peitoral pode representar - sutiãs, topes, blusas e tudo o mais que se vista por cima, vestia-se! Isso sem contar na maior de todas as mudanças: a do "eu", que já não é o mesmo, antes tão bem conhecido, e tudo o que isso acarreta:

O dormir de bruços, que já não é tão confortável, o contato físico que se torna inevitável mesmo nos abraços menos pretenciosos, o balançar que passa a acompanhar o caminhar, ainda que sejam firmes os passos, os peitos, não importa - as pequenas mudanças que acompanham as grandes são inevitáveis. O que é evitável é uma cirurgia estética mal planejada, feita pelas razões erradas, pelo profissional errado ou pela paciente errada - aquela que não sabe bem o tamanho da transformação que está prestes a sofrer.

Uma mulher de peito é aquela que encara os desafios nos olhos, independente daquilo que carrega em qualquer peça íntima. 
Não é preciso ter culhões nem peitos para ter coragem - seja para mudar, seja assumir que não se precisa de mudança. Até porque, mudança nenhuma ocorre de fora para dentro, nem pode ser escrita por bisturis ou descrita pela experiência alheia - por mais "peituda" que seja a escritora.

quinta-feira, novembro 10, 2011

Manifesto pela literatura

quinta-feira, novembro 10, 2011 1
Raramente posto aqui vídeos em que meu trabalho não esteja direta ou indiretamente envolvido. Dessa vez, não é diferente - uma vez que trabalho para e pela literatura! Tenho fé em poucas, pouquíssimas coisas nesta vida, eis uma delas:

Só a literatura salva!
Salvemo-nos, enquanto há tempo ;]

Musica: Quiet Company - How do you do it
Produção: Pele de Cordeiro
Roteiro: Aline Valek
Fotografia e Edição: Marcos Felipe
Ilustração: Douglas Reis
Mãos de: Cavi Loos, Douglas Reis e Aline Valek

Tristes verdades

"I thought I told you this world is not for you" - The Strokes, Reptilia
Charm - Dave McKean

Você sabe
ou está prestes
a saber
de algumas
tristes verdades
e outras
pequenas
lindas
mentiras

Não tão pequenas
quanto é você
agora
nem tão lindas
quanto haverás
de ser
um dia

Só se vive
uma vez
uma vida
e nada além
mas isso é duro
demais para lhe dizer
então, por favor, não
pergunte antes
que eu possa responder

Mentiras
lhe darão muitas delas
desnecessárias
em sua maioria
mas nem sempre
espere de mim
a mais óbvia das respostas

Seremos uma surpresa
um ao outro
e isso é bom
não? muito
prazer em conhecê-lo
meu filho
ainda sem gênero
e sem ouvidos
pensei ter lhe dito:

"este mundo não é para você"

E ainda assim
você teima em vir
são suas as escolhas
e tudo o que me resta
a fazer é transformar
esse pequeno pedaço
do mundo em que vivemos
em um lugar melhor
para você

E é pra já
pois desconfio
que nem ele, nem você
haverão de esperar
que algum de nós
esteja verdadeiramente
pronto, então seja logo

Bem-vindo, meu bem
a um mundo cheio
de verdade
e de verdades
das quais
jamais poderei
lhe salvar
por mais que queira
ou tente, ou minta.

sexta-feira, novembro 04, 2011

Moda de bola murcha

sexta-feira, novembro 04, 2011 1
Crônica publicada no Mulher Interativa do Jornal Agora // Ilustrada por Lorde Lobo

Gravidez e moda, não combinam. Ao menos não, segundo a opinião dos lojistas - basta visitar qualquer "casa de roupas" e nela, sua sessão de moda-grávida. Isso se houver uma, o que já seria alguma coisa. Na maioria das vezes, o que se encontra é um cabideiro ralo exibindo meia dúzia de peças ultrapassadas e de um senso estético tão duvidoso que faria da toalha de mesa da sua avó uma opção mais moderna.

Mas se você não está grávida, não precisa se preocupar com isso - a menos que seja mais alta que a maioria - porque se for mais baixa, é claro que já guarda na manga, ou na barra sobressalente, uma competente costureira especialista em bainhas - ou que esteja um tanto acima ou abaixo do peso de uma modelo padrão - o que é algo entre um manequim 36 e, no máximo, um 40 que na verdade é um 38 enrustido. Agora, se você está grávida, em processo de crescimento multidimensional progressivo, querida... Bem-vinda ao clube!

A primeira coisa que muda no guarda-roupas de uma grávida é o tamanho de sutiã - o que costuma ser motivo de alegria, fogos de artifício e lágrimas de emoção, tanto da portadora dos novos 'meninos' quanto, e especialmente, daquele que tem o privilégio de acompanhar de perto o crescimento deles - marido, namorado, vizinho voyer, tanto faz. Os primeiros dois aumentos de número são uma verdadeira conquista - até porque, nesse ponto, a barriga ainda não está muito grande e, dependendo da roupa, parece que se ganhou um belo par de silicones e uns quilinhos nos lugares certos - uma maravilha. Até que o primeiro top G aperta... E o 46 estranhamente não fecha! Momento este acompanhado pelo crescimento expansivo da barriga, das ancas, das bochechas, da fome e de tudo que leva uma mulher ao encantador estado de embolotamento - estado muito encantador esse, dizem eles.

Já você, por outro lado, depois de experimentar todas as coisas possíveis e descobrir serem elas, na verdade, incabíveis, começa a blasfemar contra a magia do momento... Magia que transforma cinderelas em abóboras recheadas. Mas, tudo bem, não se sinta culpada por conta disso - e, por favor, não use a comida como forma de soterrar a culpa. Blasfêmias, neuroses e mau-humor são absolutamente normais, adequados e extremamente comuns à mulher em "estado interessante" - ou seria "estressante" - ambos, simultaneamente, digo eu [e não estou aberta a questionamentos, ok?!!].

Pois bem, depois de organizar o guarda-roupas para a nova estação e descobrir que 60% das peças, em breve, não servirão, enquanto os outros 40% já não servem, não há lugar mais urgente a se ir, a não ser aquele no qual todas vão ao se sentirem acoadas - não, não é o salão de belezas, nem a barra da saia da mãe [de clichês já bastam as campanhas publicitárias] - falo de visitar as amigas mais traiçoeiras que se pode ter: as lojas, às compras!

É uma tremenda sacanagem aquilo que as lojas chamam de 'moda-grávida".
Parecem sugerir que, junto a forma, devam ser perdidos o senso de moda e a autoestima! Eis um testemunho indignado: horas depois de um completo desperdício de tempo, paciência e esperanças de adquirir roupas apropriadas ao meu estilo - grávida, ou não - como mulher prática e moderna que sou, penso em "atitudes plausíveis" a solucionar o dilema que me assombra:

1. instaurar o nudismo gestacional como moda-verão [e ser presa e/ou demitida por conta do pioneirismo mal-interpretado]; 
2. mudar de religião [embora antes seja preciso ter uma] e aderir à burca; 
3. fazer com a Beyoncé e criar minha própria grife [ah, "barbada", se você for uma diva pop ainda mais rica que grávida]; 
4. correr, balançando os bracinhos roliços, chorando e blasfemando contra a indústria têxtil, contra os ditadores da moda, contra os designos do universo e contra tudo mais que se intrometer no meu caminho até o procon, à geladeira, ao aconchego do meu lar, ou o que vier primeiro [mas ataque de piti tem limites, mesmo para uma bomba de progesterona ambulante].

No fim das contas, torna-se compreensível a aparente obsessão das gestantes por batas e leggings [argh!] - na falta de melhores opções, veste-se o uniforme da situação. É como o "pretinho básico" da gestação - não tem graça, mas... Não tem erro - e o melhor: cabe! Só o que não cabe é se deixar ser transformada em barriga, como se a mulher que ali está não passasse agora de uma mera incubadora. Já que o bebê é tudo o que importa, dane-se "o resto" que o cerca, o gera e o carrega. A barriga torna-se o foco - e, para muitos, uma propriedade pública: nunca se viu a dona dela antes, mas, pode-se passar a mão até que saia um gênio. Vale lembrar que aquela é a parte do corpo de alguém que anda sensível, instável e que merece um pouco de respeito, e não só da indústria da moda [mas dela, também, tenha dó!]

terça-feira, novembro 01, 2011

Tecla gasta

terça-feira, novembro 01, 2011 1
Reprodução


O dedo não tem
memória
e vira
e mexe
volta ele
a apertar
aquele mesmo
botão de sempre
que nunca
jamais
lhe ofertou
o objeto
almejado

[clique]

Com o dedo
esquecido
ele insiste
e incide
na mesma
insídia

mais uma vez
e lá
vai o mesmo
dedo pesando
sobre aquele
mesmo botão

[clique]

Se um
botão não tem
a resposta
de nada
adianta
apertá-lo
uma ou mil
vezes a opressão
não cria
novas
verdades
apenas reforça
antigas mentiras

[clique]

quarta-feira, outubro 26, 2011

Olhares perdidos

quarta-feira, outubro 26, 2011 0
Autorretrato

Eu te olho
e os teus olhos estão na tela
eu falo
contigo
e os teus olhos correm
paredes, teto e chão
e quando comigo falas
tudo tem tom de despedida

e eu corro
as mãos em busca de ti
prender para nunca
mais perder
e assim acabo
comigo, contigo
agindo feito tola
como todas o são

enquanto aumenta
o vazio entre nós
dois, os olhos meus
te seguem, ainda que
estejas longe demais
para perceber
e minhas pálpebras
acabam cerradas

eu te olho
e jamais me vês, então
pergunto: o que será
que eu estou fazendo
quando tu me olhas
e tu
me olhas?
quando?

Exército de puppets

War Bowl by Dominic Wilcox

Como se faz
para manter
uma paixão?
não basta ser boa
a trama
não basta serem fortes
a mão
e os dedos
e o entrelaçado deles

nem se usar de todo
o corpo, as pernas
ou a alma [se a tiver
inteira]
fatídica e inevitavelmente
ela escorre e escapa
por entre vãos
que nem sequer sabíamos
existir

quando foi que os criamos?
como foi que os deixamos
crescer? por que
nunca somos capazes
de os manter
pequenos - os vãos
vivas - as paixões
grandes - os desejos
mortos - os medos?

o tempo
aquele mesmo que
nos dá as oportunidades
e as distâncias certas
para que [?] possamos
senão apreciar, reconhecer
os ganhos
nos leva tanto
quanto nos traz

e nos rouba, e nos lesa
e nos toma
como se fôssemos pequenos
soldadinhos de papel postados
num gramado úmido deixados
a mercê do vento, do tempo
e de todas as intempéries
que eles carregam
e que seu sopro jamais nos conta.

domingo, outubro 23, 2011

Do caroço das coisas

domingo, outubro 23, 2011 1
Ilustração de Lorde Lobo - Crônica publicada no Jornal Agora/Mulher Interativa


Já diz o jargão “Nem tudo o que reluz é ouro” – na verdade, raramente é... Primeiro, porque muitas coisas podem se fazer passar por ouro, vindo a enganar de espertos a tolos. Segundo, porque a mente prega peças – especialmente quando carregada de ânsias e ganâncias.

E, além disso, vale lembrar que o valor atribuído a todas as coisas está no consenso dos olhos que a avaliam, e não na coisa em si. Em outros tempos, sementes eram as maiores riquezas que se podia levar nos bolsos. E o ouro, não passava de um pedaço de pedra brilhante e hipnótica, cuja beleza, aparentemente inofensiva, viria mais tarde a cegar milhares de homens, acabando por opalescer-se sob abundantes e irregulares manchas rubras – embora o consenso dos olhos ainda veja nele mais valor que em qualquer semente, independente do que germine.

Assim como são as coisas, são as criaturas: raramente o valor de uma é mesurado por aquilo que ela é capaz de deixar no mundo. O mais comum é fazer-se uma breve inspeção superficial, avaliando a integridade da casca, o brilho refletido e a simetria das formas, ignorando-se aquilo que os olhos não podem ver.

Aquele que parece distante pode estar lutando contra a barreira da timidez. O muito extrovertido e piadista inconveniente, também – cada um faz uso dos atributos que possui, para lidar com as limitações que carrega, muitas vezes com isso distanciando o ser do parecer. A mulher que parece pisar no topo do mundo pode estar apenas tentando pisar sobre a própria insegurança, enquanto a que parece relapsa - quer seja na vida romântica, pessoal ou profissional – pode, na verdade, ter se cansado de jamais “chegar lá”, perdendo com isso a vontade de lutar.

A verdade sobre toda e qualquer coisa está muito além do que se pode enxergar. Já dizia Saint-Exupéry:

“O essencial é invisível aos olhos”.

A verdade está no caroço. Talvez ele esteja oco ou repleto de vida... Independente da forma que traga, do que a casca anuncie e do quão suculento, azedo ou doce seja aquilo que o reveste, é lá que mora a essência de tudo, o real valor de todas as coisas – e o caroço das coisas não pode ser determinado por uma convenção qualquer, nem por milhares delas. O caroço das coisas jamais é conhecido, a menos que se faça uma profunda viagem ao centro do mundo guardado em cada sujeito ou objeto.

quinta-feira, outubro 13, 2011

Eventos: Festival Manuel Padeiro de Cinema e Animação

quinta-feira, outubro 13, 2011 0
Atenção: o evento foi transferido - segue a informação atualizada:
Um novo período de inscrições para a 3ª edição do Festival Manuel Padeiro de Cinema e Animação será aberto entre 1º de dezembro de 2011 e 15 de janeiro de 2012 [as inscrições realizadas entre 28/09 e 28/10 continuam válidas] - aproveite a oportunidade! O Festival ocorrerá entre os dias 11 a 14 de abril de 2012, no Parque Museu da Baronesa - Pelotas/RS. Interessados em inscrever filmes na Mostra devem antes conferir o regulamento disponível no site do evento.

Entre as atrações do Festival haverá a apresentação de videopoemas, desenvolvidos pelo pessoal da Faculdade de Cinema e Animação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e taaaalvez entre eles esteja algum dos meus. Torçamos que sim ;]

Confira o vídeo promocional  [Créditos de Rodrigo Elste] e...
Inspire-se!

Mulato






Durante a procura
vã por um poema
tolo escrito noutro
dia, encontro velhos
versos e rabiscos
que me parecem tão
novos
e já tão pouco
meus
e neles encontro
surpresas
piadas
tristezas
números
de coisas e
pessoas que nem
mais existem
pequenos pecados
de língua
e a receita de como fazer
um certo bolo
mulato
que sequer conheço
assim como a razão
de estar ali.

sábado, outubro 08, 2011

Matar ou morrer

sábado, outubro 08, 2011 0
By Lorde Lobo

Havia saído para buscar um de seus animais de estimação na clínica veterinária de sua maior confiança. Deixara o bichinho lá para um procedimento simples, limpeza dos dentes, mas que requer a administração de anestesia geral – não que alguém no mundo goste de ser submetido a uma limpeza bucal profunda, mas acontece que os pets são um tanto mais dentuços e menos civilizados que a maior parte de seus donos e, como se pode imaginar, não costumam ir ao veterinário de livre de espontânea vontade... Geralmente as visitas a esse tipo de local são associadas à inserção de objetos gélidos em seus pequenos orifícios desavisados.

Pois bem, chegando lá, foi recebida com a mesma gentileza de sempre por uma das doutoras e conduzida ao encontro de seu filhote – que na verdade mostrou nos dentes mais idade do que o pequeno tamanho anunciava. Porém, ao entrar no consultório, percebeu estar invadindo a consulta de outro paciente. Ele parecia mal, muito mal, e, ao julgar pelo cheiro fétido que impregnava a sala, devia estar ainda pior do que aparentava. E estava. Estava morto ou em vias de. Jazia sobre a bancada de inox, com os olhos fechados, língua de fora e metade de seu minúsculo corpo envolto em sacos plásticos. E fedia, terrivelmente.

Até ter sua sessão de morte encomendada interrompida pela mãe adotiva da gata, que antes parecia ter na boca o pior de todos os cheiros, dava adeus a sua vida e a sua dor, na companhia da veterinária, enquanto a família, que o trouxera até ali, aguardava no hall de entrada. Não pareciam felizes, mas pareciam - do ponto de vista de quem acabara de chegar à cena - estarem no lado errado da porta. O lado dos que aguardam uma consulta alheia. O lado que fedia menos... Enquanto uma intrusa qualquer se compadecia da morte fedorenta e solitária daquela pequena vida que tanto lhes dizia respeito.

Bicho-bicho ou bicho-homem, na velhice e na doença toda morte é fedorenta e solitária. 
Talvez o que amenize a dor seja ter um referencial para onde guiar o último olhar e uma mão familiar onde deixar o último toque. Ou talvez seja mesmo uma dose cavalar de analgésicos, administrados por uma mão profissional... Há quem diga que, em certo ponto de martírio, o único alívio é deixar de sentir – um conforto que pode ser oferecido por qualquer mão fria e destra o suficiente para desligar o botão da vida. Morte ”matada” ou morte “morrida”, no final das contas não passam da mesma droga. De qualquer forma, só sabe quem chega lá, e nesse caso, não é bom ter pressa.

Deixando a cena de morte para trás, essa história – individual e felina – teve um final feliz: buscou sua gata. Saudável, bonita e molenga da anestesia. 

E não é que agora a boca, antes podre, já nem fedia?

terça-feira, setembro 27, 2011

Eles

terça-feira, setembro 27, 2011 3
by Tina Berning  - "Crowd"

"Eles"
são uns
eternos
insatisfeitos.
andam por aí
apressados como
se soubessem
mais
do que nós
aonde ir
ou qualquer
outra coisa.


eles
vivem lá
com seus
buracos
dentro
de outros
buracos
cheios
de vazios
que jamais
poderão ser
preenchidos.


eles são uns
pobres
coitados
e tudo o que
agora desejo
é que (ao menos
por ora) sejamos
nós
(uma vez que
a eternidade
a eles pertece)
os outros.

segunda-feira, setembro 26, 2011

Janela indiscreta

segunda-feira, setembro 26, 2011 0
by Sophie Griotto


Não existe pretensão maior que a de julgar-se...
capaz de fazer um julgamento
alheio!

Acompanhar as novas - boas ou más - da casa do vizinho é um hábito - feio, muito feio, não faça isso em casa! - que sempre divertiu o povo. Não é à toa que os "BigBrothers" da vida fazem tanto sucesso. Muda-se a pátria, mudam-se os patrícios, muda-se o canal, mas se há algo que não se muda é a natureza dos homens.

Quem nunca viu, ainda que a distância, um bando de urubús se formando em torno de um acidente? Parece que o sangue libera algum tipo irresistível de feromônio gregário...  Parece, mas só parece. Quem nunca bisbilhotou ou se sentiu bisbilhotado? Quem nunca pôs um copo numa parede para melhorar o audio de algo que nem deveria se ouvir? Ouviu? Se não (parabéns!), mas ao menos ouviu falar.

Ainda pior que estar numa janela indiscreta é saber que cada par de olhos curiosos é acompanhado por uma enorme boca maliciosa e, de um a dez, dedos pontudos afoitos para mirar num alvo distraído. E quanto mais interessante sua vida se torna, menos com eles você se importa. E é aí que a audiência aumenta.

"Só pessoas que enchem o saco ficam de saco cheio. Têm de viver se cutucando continuamente para se sentirem vivas." - Bukowski

Há indivíduos cujas vidas são tão vazias que encontram no voyerismo uma esperança.
Fazem dele uma ferramenta para nutrir suas carências através das abundâncias alheias. Talvez por estarem com suas pobres bundas acomodadas demais para se moverem em busca das próprias realizações, talvez por serem tantas as frustrações que já não encontrem ânimo para vencê-las, ou ainda, talvez por serem de uma pequenez tamanha que se sintam satisfeitos em subviver no camarote dos que ocupam o palco da vida. Acabam por se tornar sombras daqueles que andam sob as luzes. Contentam-se com as sobras do mundo e, quando muito amargurados pelos próprio desgostos, passam a assombrar, na tentativa de ofuscar aquilo que lhes é estranho, afinal, a felicidade alheia incomoda e lutar pela própria dá muito trabalho...


Mas dentre todos os tipos de más-ações, intenções e intecionados, poucos são piores que aqueles disfarçados de bondade. Aquele que julga e critica e condena, porque "sabe o que é melhor". É o dono e soberano "da verdade" - sim, pois para este, ela é única. E lá está ele, na soberba: uma sala sem espelhos; um patamar de onde se grita sem ouvir o eco. Quem faz o mau por prazer, ao menos tem a dignidade de assumir-se mau, mas quem o faz disfarçado por nobres razões, é de uma hipocrisia nauseante.


Se cada um se concentrasse em viver sua vida, conforme seus próprios princípios e padrões, sem tentar enfia-los goela abaixo daqueles que optam por viver de forma diferente, e se tal diferença fosse por ambos respeitada, não seriam necessárias tantas cercas e cortinas, não seriam necessárias tantas leis e penitências, nem mesmo seria necessária uma crônica como esta. Mas, infelizmente, ainda é...

Pois lá está ela, a presunção, pairada na janela.



*Crônica publicada no caderno Mulher Interativa, do jornal Agora [Rio Grande, RS], em setembro de 2011.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Três nãos

sexta-feira, setembro 23, 2011 1
Stillness of silence by diablata (Natalia)


Se outro
não
a mim disser
não
hei de morrer
mas se o vazio
do silêncio
nos couber
não
posso
prometer
de todo
que irei
viver.

segunda-feira, setembro 19, 2011

Revolta pelos animais

segunda-feira, setembro 19, 2011 2
By Lorde Lobo

"Gosto de olhar os meus gatos, eles me acalmam. Eles me fazem sentir bem. Você sabia que os gatos dormem 20 das 24 horas do dia? Não se admira que tenham melhor aparência do que eu. Na minha próxima vida, quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar ser alimentado. Sentar por aí lambendo meu "rabo". Os humanos são desgraçados demais, irados demais, obcecados demais". - Bukowski.

Desde o mitológico Ìcaro que o desejo do homem por experimentar a vida na pele, ou, neste caso, na pena, de um animal se mostra de benefício duvidoso... E nem é preciso voar até o sol para entender o porquê. Basta observar o quão difícil é a vida dos bichanos mais próximos a nós, os pobres domesticados - é um excesso de deveres e uma ausência de direitos sem tamanho:

Animais não têm direito a nascer. Animais não têm direito a andar nas ruas, a procriar, a emitir qualquer som, a brincar com crianças menores que eles, a se aproximar à 100 metros de uma grávida, a aposentadoria por idade ou tempo de serviço, a um lugar decente para morrer. Animais não têm direito a coisa alguma!

Ao menos, não, segundo a representatividade da opinião pública, - aquela que faz com que as coisas aconteçam ou deixem de acontecer- ou seja, os representantes legais da população. Por direito, os animais - domesticados ou não - tem algumas leis que os protegem, sim. Deveriam ter mais, mas, nem as poucas são respeitadas - uma questão de cidadania, a nossa. Pena ser a política dos irracionais ainda menos organizada que a nossa - por mais difícil que isso pareça - ao ponto de os impedir de eleger um porta-voz que defenda seus direitos de maneira inteligível. Cabe(-ria) a nós a luta deles. Porém, nessas horas, sempre surge um ser esclarecido a questionar qualquer iniciativa que leve em conta os não-racionais, diminuindo a viabilidade dessa por comparção a todas as carências "mais importantes" da população humana.

Como resultado, quaisquer animais tornam-se presas fáceis na selva urbana em que, por azar, acabaram inseridos...Sendo ridicularizados com roupinhas e nomes patéticos, sendo explorados e submetidos a trabalhos nada voluntários, sendo negociados como mercadoria, morta ou viva, em mercados de todo o tipo. Mas, basta mencionar lhes assegurar algum direito para fazer gente bufar - sim, nesse caso, gente bufa - gato mia, cachorro late, pássaro pia, cavalo relincha, boi muge... e, assim, se faz muito barulho por nada.


Na hora de brincar com o cãozinho que serviu de presente para o netinho mimado, todo mundo gosta de animais, mas na hora em que este morre, basta jogar-lhe no lixo, orgânico, de preferência - não que a educação popular permita a percepção de alguma diferença. É de arrepiar os pelos dos que são sensíveis a causa.

Pena mesmo os bichos não serem organizados ao ponto de fazer greve ou revolução, à lá Gerge Orwel, ou ao menos assitir - e entender- a TV Câmara de sua cidade [e alguém assiste? sim. E alguém entende?], para ver o que seus queridos bípedes confabulam na sua ausência. Mas, eles não podem... 
Estão ocupados demais abanando seus rabinhos, andando na fila do abate ou puxando uma carroça para um humano qualquer.

P+2T: Especial Erótico! Baixe o seu.

Curtiu? Curte lá: P+2T no Facebook

Ou siga por email, inscrevendo o seu aqui:

 
◄Design by Pocket Distributed by Deluxe Templates
Blogger Templates